Ontem uma colega questionou-me sobre um problema que apesar de bastante antigo é um dos mais delicados na prática da clínica psicológica.
O que fazer quando um paciente manifesta intenção suicidária séria? O que fazer quando há um plano minucioso para por termo há própria vida? Temos nós, psicólogos, o direito de interferir nas decisões dos nossos pacientes?
Responder a estas questões não é nada fácil. Na minha opinião, depende. Depende de muita coisa. Por norma, devemo-nos abster de intervir na vida pessoal dos nossos pacientes. O que nos interessa, o nosso campo de intervenção é o tempo e o espaço da sessão psicoterapêutica. Mas quando um paciente nos invade ao ponto de ficarmos hiper-preocupados com ele, ao ponto de ficarmos com medo de que ele se suicide, ao ponto de termos o sentimento de precisamos de lhe “salvar” a vida, vida essa que está ameaçada pela destrutividade que o habita. Temos nós o direito de o tentar impedir? Podemos nós “salvar” o paciente dos seus desejos homicidas virados contra ele próprio? Serão as nossas interpretações suficientes? Devemos agir? E, que tipo de acção?
Na minha opinião, em primeiro lugar há que tentar perceber a estrutura de personalidade que está presente e a “qualidade” da motivação suicida. É diferente se o paciente tem uma estrutura neurótica, borderline ou psicótica. O risco de que o paciente efectivamente se suicide, aumenta à medida que percorremos a gama das estruturas, mas o maior perigo talvez esteja nos pacientes que apresentam uma estrutura borderline psicótica e uma configuração psicopatológica do tipo maníaca. A dinâmica maníaca imprime força egoica e auto-determinação que pode levar a um agido fácil e calculista. A dinâmica borderline imprime o cunho do acting como solução “defensiva” para a dor narcísica. Nestas situações, acho que o psicoterapeuta não pode ficar comodamente sentado no seu sofá à espera que a interpretação traga “luz” a um mundo tão desesperado. Nestas situações, acho que temos que lançar mão de todos os recursos que possamos ter à nossa disposição; falar com a família se necessário, falar com o paciente e explicar-lhe o quanto ele é uma ameaça para si próprio, forçar – na medida do possível – um acompanhamento psiquiátrico de urgência.
Dê uma vista de olhos a um site muito bem feito e particularmente interessante – útil – sobre suicídio: Sociedade Portuguesa de Suicidologia
3 comentários:
De facto, a questão do suicídio sempre colocou grandes questões para algumas correntes da psicologia. Na minha opinião e é apenas a minha opinião! Devemos travar o impulso suicida, aliás a argumentção ou o contacto com a rede se suporte são recursos a usar, quer em grupos terapéuticos quer em serviços vocacionados para estas patologias.
Ou então podemos simplesmente dizer ao paciente:
"Mas se levar por diante o suicídio não conseguirá terminar a sua psicoterapia, e isso seria bastante aborrecido para si!"
Porque o terminar da vida quer dizer em termos existênciais que deixamos tudo o resto por acabar!
O suicidio é de facto complicado, no entanto acho que o problema é se nós próprios terapeutas tivermos pudor em falar e pensar sobre isso com o nosso paciente!
A experiência que tenho de um hospital de dia em que são internadas imensas pessoas com ideação suicida, é a de pegar o "touro pelos cornos"!, desculpem-me a expressao um pouco rude! O que tenho visto, é que ao longo destes três anos em hospital de dia, é que felizmente nenhum dos "nossos" pacientes se suicidou e que pessoas com "n" passagens ao acto (cortes, ingestão medicamentosa) deixam de o fazer quando deflectem a agressividade e quando são confrontados com o comentário e pergunta "parece-me que está extremamente zangado, com quem é que esta tão zangado?", á resposta tipica "comigo proprio", pudemos dizer algo como "não me parece, parece que está muito irritado com alguem... se calhar era importante pensarmos sobre esses sentimetos".
Julgo abrir-se uma porta para o paciente, um espaço emocional em que a pessoa perceba que pode falar sobre a sua raiva, agressividade, deflectindo deste modo a raiva outrora dirigida contra si.
É claro que as coisas podem não se passar assim, nao quero de todo estar a generalizar as coisas e isto que disse depende da relação estabelecida entre paciente/teraputa, e não só. Perguntas como : o que é que imaginaria que as pessoas iriam sentir, como os seus pais, marido/mulher, filhos. Que impacto é que fantasia que isso iria provocar nos outros...talvez sejam pistas para conseguirmos juntamente com o paciente dar um nome a um sofrimento ou zanga tao grande que parece só encontrar expressao no violento e dramatico desejo de por fim á vida!
Acho que estes pacientes beneficiam muito da terapia de grupo, porque tem dos outros pacientes um feedback muito autentico, nao tendo estes que assumir a tal suposta postura de maior neutralidade do terapeuta...Individualmente tambem acho possivel claro, e no consultorio tive dois casos em que foram no inicio quase catárticos e psicodramaticos (se o seu marido estivesse aqui o que é que gostaria de lhe dizer...), a seguir há que transformar e elaborar e isso sao outros quimhentos...
Ana Amador
Não sei se um psicólogo ou um psiquiatra podem ou devem ter esse dever.
Contudo, sei que, qualquer ser humano o tem.
Vocês saberão melhor que qualquer um levá-lo a cabo.
Estarei a ser radical?
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