terça-feira, julho 09, 2013

VAMOS BRINCAR?

No “meu tempo” já havia jogos de computador. Tínhamos na altura o Spectrum, que exigia um leitor de cassetes e alguns cabos ligados à televisão. Às vezes o jogo “não entrava” e lá era preciso tentar outra vez, esperar e, por vezes, deixar de lado o jogo pretendido e escolher outro. Jogava-se ao Pacman, que tinha de comer umas peças de fruta enquanto fugia dos fantasmas. Jogava-se um outro, cujo nome já não me recordo, que tinha de saltar patamar a patamar, na altura certa, para não bater com a cabeça e voltar ao início! Depois a informática evoluiu e surgiu uma maior diversidade de jogos, alguns um pouco mais violentos, mas que, ainda assim, tinham como objetivo salvar os bons dos maus, em cenários que claramente pertenciam ao mundo do imaginário. Também sou do tempo em que se jogava ao elástico, aos pais e às mães, às escolas…. Os peluches serviam de alunos, as mãos faziam de binóculos para ver as estrelas, pediam-se desejos com o “quantos-queres”, as vassouras serviam de mota…

Pode parecer, mas não estou a ter uma crise de nostalgia da infância. Estou antes cada vez mais preocupada com o excesso de jogos eletrónicos e o seu impacto no desenvolvimento sócio-afetivo da criança.

Antes de eu jogar Spectrum, Winnicott já dizia “É no brincar, e apenas no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar a sua personalidade integral; e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o seu Eu”.

É através do brincar que a criança experimenta, sente, imita, cria e transforma. É também a sua forma natural de comunicar. É na brincadeira que a criança cresce, aprende e cura, sendo o instrumento mais poderoso para lidar com os sentimentos; à medida que os organiza na história que inventa, está a preparar-se para avançar e adaptar-se. Mas esta capacidade parece cada vez menos frequente e cada vez menos natural. Reflexo da sociedade? As crianças já não têm de esperar que a cassete do spectrum arranque, pois têm acesso aos jogos com um ligeiro toque do indicador, em qualquer lugar, a qualquer hora. Já não precisam de imitar o bebé a chorar, pois o bebé vem com pilhas e chora sozinho. Já não têm de dar vida a qualquer boneco pois qualquer objeto a que se chame “boneco” faz tudo sozinho. Já não têm tempo para brincar, nem os pais têm tempo para brincar com elas.

Apesar de ainda não existirem estudos cientificamente válidos suficientes, o impacto negativo do baby-sitting eletrónico no desenvolvimento sócio-afetivo parece ser cada vez mais evidente.

Grande parte dos jogos preferidos pelas crianças, desde a mais tenra idade, tem uma forte componente agressiva e um grau de realismo perigosos. Um estudo de 2006 demonstrou que a exposição a jogos violentos leva à dessensibilização para a violência na vida real. Os jogadores parecem “habituar-se” à violência, manifestando uma menor resposta fisiológica à mesma, bem como uma menor empatia e ajuda perante vítimas de violência. Por outro lado, parece existir maior impulsividade e uma menor consciência dos limites da agressividade e dos danos que a mesma pode causar. Lembrar-se-ão de um trágico acidente em que uma criança pequena matou outra, achando que ressuscitaria como acontecia nos jogos. Este é um dos maiores riscos dos jogos de hoje (também associado à falta de acompanhamento parental): a não distinção entre fantasia e realidade. E a acessibilidade à violência parece contribuir ainda mais para esta indiferenciação.

Outro estudo (longitudinal, que terá durado quase duas décadas) aponta para um risco crescente de desenvolvimento de perturbações da personalidade, não diretamente associado aos jogos eletrónicos, mas à ausência do brincar e da disponibilidade dos pais na infância. O envolvimento forte e ativo com os adultos potencia as ligações interpessoais e as competências sociais, contribuindo para o desenvolvimento psicológico. Este envolvimento estará na base da vinculação, da empatia e da afiliação, da ligação ao “mundo das pessoas”, da sua disponibilidade e capacidade para comunicar com os outros. A ausência deste envolvimento precoce, para além da escassa socialização com os pares, promovida pela individualidade dos jogos, parece estar a aumentar o risco de perturbações esquizóides na idade adulta. E talvez não seja por acaso que nos aparecem cada vez mais crianças com sinais já bastante instalados desta patologia.

Deste modo, a criança tem de brincar e de ter companhia para brincar. Do que é que está à espera? Sente-se no chão, volte a ser criança e dê largas à sua imaginação! Imponha limites aos jogos e ao seu conteúdo. “Perca” tempo com o seu filho, faça-o ganhar saúde mental! É preciso desenvolver o seu mundo interior, para que a criança possa lidar com o mundo exterior.


4 comentários:

Nuno Roxo disse...

Belo texto.
também sou do tempo do spectrum, tenho uma filha com sete anos que não tem jogos electrónicos mas tem tv a espaços e algum tempo de dvd, consoante os "objectivos" diários cumpridos ou não. "perco" bastante tempo com ela, mesmo sem ter muito tempo... e adoro, porque é divertido e me dá imenso prazer, e a ela também. mas será que mais importante que as crianças usarem ou não jogos electr., não passará pelo prazer que dá, ou não, aos pais desfrutar da educação dos filhos!?

João Ferreira disse...

Gostei especialmente da expressão "baby-sitting eletrónico"! Os jogos em si não me parecem ser o principal problema (também têm imensas vantagens pedagógicas, intelectuais, de lazer, etc.); agora o tal "baby-sitting eletrónico" é que muda completamente a função de um jogo ou ocupação (ex. televisão)na vida de uma criança: passa a ter o papel de substituto da relação parental, o que leva à tentativa incosciente da criança para preencher esse vazio com algo que se torna compulsivo pela impossibilidade de efetivamente o preencher!

Alexandra Barros disse...

Caro Nuno Roxo, agradeço o seu comentário. Sem dúvida que o essencial passa por essa diversão e partilha, e que as crianças sintam que os pais estão verdadeiramente disponíveis para estes momentos de gratificação afetiva.

Alexandra Barros disse...

João, sem dúvida que há muitos jogos que trazem algumas vantagens, falarei sobre alguns deles em breve. No post mais recente já estão algumas sugestões, embora não eletrónicas! Penso que o problema reside no tempo que as crianças passam com jogos que pouco contribuem para o seu desenvolvimento cognitivo e afetivo, deixando muito pouco tempo para a partilha e comunicação com os pais.