segunda-feira, março 26, 2007

Acompanhamento psicológico à distância (ONLINE): A escolha certa?

O QUE É?

É uma nova modalidade de ajuda que utiliza as vantagens da Internet e das tecnologias de informação, permitindo a comunicação virtual, no momento ou em diferido, com um psicólogo. Com o surgimento da Internet, quase simultaneamente se tornou visível o seu potencial terapêutico como forma de comunicação. Em 1972, há registo de uma das primeiras formas de utilização da Internet numa sessão de psicoterapia simulada no âmbito da International Conference on Computer Communication, em Outubro desse ano. Os grupos de apoio online foram uma das primeiras formas sistematizadas de utilização deste suporte na relação de ajuda. O sucesso destes grupos firmou o potencial meio de comunicação que a Internet era, mesmo para abordar assuntos pessoais e delicados.

A consulta de acompanhamento psicológico online pode ser efectuada através de:

1. e-mail: não há necessidade de estar online simultaneamente, havendo o tempo que se desejar para escrever e pensar. É o meio de comunicação preferido pelas pessoas que gostam de escrever ou que têm horários muito difíceis de compatibilizar com o terapeuta.
2. chat: conversação instantânea com voz ou através de troca de mensagens escritas instantâneas. É preferida pelos que desejam uma resposta imediata por parte do terapeuta.
3. videoconferência: é considerada a forma ideal de terapeuta e cliente se relacionarem online. Existe a possibilidade de contacto visual e a consequente recolha de informação não verbal que poderá enriquecer a relação terapêutica. Com frequência porém, as pessoas sentem que na relação online conseguem revelar mais de si precisamente pela possibilidade de não existir contacto visual. Sentem-se mais seguros nesse contexto. Dependerá de pessoa para pessoa.
4. Telefone: conversação telefónica que poderá utilizar ou não o recurso da Internet. Útil para quem pretende manter uma conversação simultânea ou quem não quiser ou quem não puder fazer uso da Internet.

SERÁ EFICAZ?

Alguns estudos têm observado que pode ser uma forma poderosa de intervenção, e um agente de mudança rápida e efectiva na vida da pessoa. Isto porque se tem observado que a modalidade on-line estimula intensamente a projecção e as características psico-dinâmicas da díade, o que estimula muito a eficácia e rapidez da intervenção (Suler, 1996). Tem sido também constatado que as pessoas on-line vão mais directamente ao assunto fulcral de suas preocupações, o que agiliza a intervenção. Vários estudos têm demonstrado a potencialidade desta área, revelando que esta abordagem clínica realizada com o suporte de Internet é mais eficaz do que o não tratamento e tão eficaz como a abordagem face-a-face (Emmelkamp, 2005; Eaton, 2005). O acompanhamento psicológico online não pretende ser uma substituição da terapia tradicional mas sim uma outra forma de relação de ajuda que pode alcançar todos aqueles que, apesar de sentirem a necessidade, não estão a beneficiar de qualquer tipo de ajuda. A relação que é estabelecida com o terapeuta via Internet pode ser profunda, autêntica e emocionalmente reparadora. Numa análise de 400 clientes que usaram serviços de acompanhamento psicológico online, 90% refere ter obtido beneficio dos mesmos (http://www.metanoia.org/).

QUE VANTAGENS?

Tem a possibilidade de ser acessível à maior parte das pessoas que normalmente não têm possibilidade de recorrer a ajuda profissional por impossibilidade física, geográfica, por dificuldade de gestão do tempo, etc.
Para certas pessoas poderá ser sentida como um contexto mais confortável dado poder decorrer num contexto pseudo-anónimo se for essa a vontade do cliente.

QUE DESVANTAGENS?

A menor existência de comunicação não-verbal poderá diminuir a riqueza da informação trocada pelo que é importante os participantes comunicarem num nível compreensivo equivalente, sentirem-se confortáveis a escrever e comunicar com expressividade e algum detalhe.
Não é adequada em momentos de crise muito grave em que estejam comprometidas as capacidades de compreensão e raciocínio lógico.

QUE PROBLEMAS PODE RESOLVER?

Perturbações de ansiedade, alterações de humor, perturbações do sono, fobias, medos, consequências psicológicas do adoecer físico, dificuldades de realização na vida, dificuldades no estudo e no trabalho, problemas de relacionamento, necessidade de melhor conhecimento de si próprio, são algumas das questões que podem ser abordadas.

SERÁ CONFIDENCIAL?

Tal como na situação face-a-face, o acompanhamento psicológico on-line é sujeito a critérios de confidencialidade que abrangem toda a informação trocada entre cliente e profissional. O uso de procedimentos electrónicos chama a atenção para alguns perigos involuntários que podem ocorrer:

O cliente ou o terapeuta podem acidentalmente enviar um e-mail confidencial para um outro destinatário. A solução é ter uma preocupação redobrada em verificar o endereço antes de fazer o envio do e-mail bem como reduzir ao mínimo o material de identificação constante no e-mail, ou encriptar a informação.

Acesso não autorizado ao e-mail do terapeuta ou do cliente potencializado pelo facto de que com frequência os computadores são partilhados. Ter por isso algum cuidado em não partilhar o computador com que este serviço é prestado ou ter especial cuidado se o tiver de fazer usando palavras-passe eficazes.

É ÉTICO?
A psicologia on-line encontra-se internacionalmente devidamente enquadrada em termos legais. Profissionalmente ela é orientada pela Sociedade Internacional para a Saúde Mental Online (ISMHO) http://www.ismho.org/about.htm e pela American Psychiatric Association (APA)/Div.46 http://www.apa.org/divisions/div46/ .

A ISMHO foi fundada em 1997, tem como missão promover a compreensão, o desenvolvimento da comunicação online a nível da saúde mental, delineando um código de conduta a ser seguido por todos os profissionais que trabalham nesta área online. Possui um grupo de discussão de casos para aprofundamento do estudo de casos clínicos que usam o suporte online e aperfeiçoamento das metodologias de intervenção.

A APA/Div.46 refere-se à Media Psychology e foca-se no papel que os psicólogos têm nos vários aspectos dos média, rádio, televisão, cinema, vídeo, imprensa escrita e novas tecnologias. Desenvolve investigação sobre o impacto que os média têm no desenvolvimento humano, aprofunda o ensino, treino e prática da média psychology, orienta eticamente os profissionais que trabalham neste âmbito.

Consultar:

http://www.psicronos.pt/

Bibliografia:

Emmelkamp, PMG (2005). Technological innovations in clinical assessment and psychotherapy. Psychotherapy And Psychosomatics, 74 (6):336-343.
Eaton, W. (2005). Internet-Based Mental Health Interventions. Mental Health Services Research, Vol. 7 Issue 2, p75.

Shaw, H. & Shaw, S. (2006). Critical Ethical Issues in Online Counseling: Assessing current practices with an ethical intent checklist. Journal of Counseling & Development, Volume 84.

Suler, J. (1996, May). Transference among people online. The Psychology of Cyberspace. Disponível www.rider.edu/users/suler/psycyber/psycyberl

26 comentários:

Margot disse...

Mesmo depois de tudo o que li não consigo acreditar neste novo método de fazer acompanhamento psicológico. A relação via internet, telefone ou e-mail nunca poderá ser a mesma. Nem sequer me parece discutivel equiparar a relação terapeutica frente-a-frente a esta nova "forma de relação". Fico até surpreendida que tenham aderido a estas novas tecnologias para estes fins.
Em certas coisas continuo a pensar que "por se mudarem os tempos não se devem mudar as vontades".

Ana Almeida disse...

Olá Margot.
Ninguém advoga que o acompanhamento à distância possa substituir a intervenção face-a-face; mas pensamos que poderá ser útil em situações particulares ou como forma preparatória da intervenção em presença.
No seu post a cerca altura a Edite diz: “O acompanhamento psicológico online não pretende ser uma substituição da terapia tradicional mas sim uma outra forma de relação de ajuda que pode alcançar todos aqueles que, apesar de sentirem a necessidade, não estão a beneficiar de qualquer tipo de ajuda.”.
O potencial de ajuda do acompanhamento à distância situa-se fundamentalmente ao nível do apoio psicológico e não da psicoterapia que visa a “reconstrução” da personalidade em profundidade.
Eu - penso que a Edite Tavares concordará comigo - considero que a psicoterapia psicanalítica tem que passar necessariamente pela presença e pela relação transferencial e contratransferencial que se organiza nessa presença; mas a intervenção psicológica não se restringe à psicoterapia psicanalítica; há outras formas de intervenção, nomeadamente o aconselhamento e o apoio psicológico.

Hugo disse...

Concordo plenamente com Margot. Parece-me que o "acompanhamento psicológico online" nem sequer merece o uso do termo "relação" com tudo o que este implica...

José Luís disse...

Bom post. :)

O webcounselling, como é denominado nos E.U.A. já não é uma "moda", mas uma modalidade de intervenção terapêutica estudada, como foi apontado, e sobretudo com mais vantagens do que desvantagens.

Deixo-vos algumas referências adicionais de bibliografia, que facilmente podem ser adquiridas na amazon.co.uk.

Career Counseling Over the Internet: An Emerging Model for Trusting and Responding to Online Clients

Online Counseling: A Handbook for Mental Health Professionals

José Luís
www.estadodefluxo.net
www.jlagapito.net

Margot disse...

Compreendo que não pretendem substituir uma intervenção pela outra mas continuo a pensar que pode haver apoio e aconselhamento presencial e este não deve ser restringir-se a uma voz por detrás do telefone ou à escrita dum e-mail.
Há um mundo para além da psicanálise mas nesse mundo de possiveis pontuais intervenções não consigo conceber a net... Perdoem a sinceridade mas é o que sintopor agora.

José Luís disse...

margot... o que os autores do blog querem fazer ver com este post, creio ser mostrar um pouco o que é o aconselhamento on-line. Não impô-lo como prática exclusiva. Mas sobretudo mostrar que tem as suas vantagens, as suas potencialidades em certos contextos e que não deve ser descurado sobretudo em situações em que seja eficaz.

A questão da web ser impessoal, é uma preconceptualização legítima. Mas mesmo assim, essa aparente impessoalidade pode jogar a favor de uma facilidade de projecção. Nós conseguimo-nos percepcionar melhor se tivermos menos estímulos alheios aos quais nos ancoremos. Desde que, do outro lado do ecrã esteja alguém com competências para transformar essa impessoalidade numa experiência enriquecedora, há ganhos.

Lógico que numa óptica de crescimento integral, restringir a intervenção ao universo dos "bits e bytes" é limitativo. Há pobreza de estimulos que posteriormente não ajudariam à reconstrução de uma nova realidade, ou pelo menos percepção da mesma. Mas como elemento facilitador ou até memso clarificador do trabalho terapêutico, a web e especialmente o e-mail contribui para a sua eficácia.

A minha área (embora de momento não exerça) é a orientação profissional e pelo menos nessa área, há ganhos. Muitas vezes um jovem pode, ao fazer pesquisa de opções formativas / áreas de estudo, deparar-se com uma dúvida que pode ser menos bem explicitada numa posterior visita ao conselheiro. "Disparar" um e-mail naquele momento pode muito bem permitir até captar certos indícios emocionais, de como a exploração vocacional está a afectar o orientando.

Margot disse...

José luís, não sinto que os autores do blog estejam a impôr nada como prática exclusiva. Claramente este é um blog de discussão, de divulgação que acompanho há algum tempo.
Achei que devia dar o meu contributo, a minha opinião. Como eu, outros tantos estarão indecisos, pouco informados, desconfiados deste novo método. Parece-me legitimo. Penso que é um tema interessante para ser debatido. Temos "pano para mangas" neste post. Julgo bom o nascimento desta discussão porque só assim surge o conhecimento e com ele o crescimento de cada um de nós enquanto psi.

Igor Lobão disse...

Penso que sim. Penso que todas essas actuações que concernem ao mundo do sintoma psicológico têm o seu devido lugar, mesmo que não se pense muito sobre os lugares desses lugares na actual sociedade.

Cabe-nos respeitar esta pluralidade (psico)terapêutica. Desde o acompanhamento psicológico on-line, a aromaterapia, musicoterapia, hipnoterapia, a prescrição farmacológica, passando pela confissão religiosa (hoje, com as novas religiões, já não se pode dizer que cumpra um certo "papel tradicional"), até ao tarot (que também reclama uma base científica), à para-psicologia, etc, etc. É preciso é que exista um mercado, o do sintoma, e uma demanda, a do sujeito (nós todos também sabemos que a publicidade e o markting ajudam a criar as demandas e consumos que, por sua vez, fazem existir o mercado).

Respeito que, está claro, não inviabiliza que lhe teçamos as nossas críticas. Eu, pessoalmente, não estarei muito de acordo com algumas delas, mas respeito todas essas práticas e saberes.

Pergunto-me, apenas, sem ter uma resposta, até que ponto não estaremos a também concorrer, com certas valências do discurso actual sobre o sintoma, para uma banalização do sofrimento, para uma des-habilitação do sujeito para lidar com esse sofrimento e à promoção de um facilitismo que conduza o sujeito, ao mínimo sinal de ansiedade, a um "profissional do sintoma".

Concomitante a esta pergunta subjaz-lhe uma outra: seremos, nós que exercemos estas profissões, inócuos ao discurso do capitalismo ou também estaremos, por esta via, a participar plenamente nele?

Acho muito curioso, por exemplo, que quantas mais práticas, saberes e meios existam, mais escolas de psicologia, melhores fármacos, agora consultas na internet etc, mais depressão, hiperactividade, fobias, etc, etc existam.

Paradoxos?

Igor

Edite Tavares disse...

Com sinceridade vos digo que tem sido muito enriquecedor a leitura de cada uma das vossas opiniões sobre o post que afixei. Elas representam nada mais nada menos que a extensão de um debate que se vem desenvolvendo mundo fora, mundo esse onde o acompanhamento psicológico à distância é já uma prática corrente.

Quando partimos para esta iniciativa foram essas também as nossas questões e interrogações. Daí a importância da fundamentação teórica, ética e pragmática que fizemos como preparação prévia a este projecto (algumas dessas referências encontram-se no post, milhares de outras encontram-se na internet). Curiosamente os congressos internacionais de psicologia com cada vez mais frequência reservam uma área para aquilo que chamam a Media Psychology, onde os participantes são convidados a apresentar investigação cientifica nesta área. A existência de jornais científicos neste âmbito acompanha esta evolução.

O vosso questionar é importante pois não nos deixa esquecer a natureza específica do contexto em que nos inserimos bem como as suas limitações. Obstáculos porém podem ser desafios mais do que bloqueios no caminho.

Assim, gostava de vos dar um pouco o testemunho do que tem sido a nossa experiência desde que iniciamos este projecto:

1º) Confirmamos, a partir das pessoas que nos procuram, aquilo que é descrito na literatura científica. Existe uma franja da população em intenso sofrimento psíquico, consciente da necessidade de ajuda e que não se encontra a usufruir dela. Razões há várias, mas em todas há um fenómeno comum, na internet a ajuda está à distância de uma tecla, de um telefonema e o pedido de ajuda concretiza-se. Umas vezes são questões simples, pedidos de informação, outras dores emocionais intensas que as pessoas transportam.

2º) A internet é sentida por aqueles que nos procuram de duas formas distintas, ou como algo persecutório e portanto ameaçador ou como um bom objecto. Isto é, o mesmo fenómeno, a mesma proposta é vivida por algumas pessoas que nos procuraram, como um meio protector por detrás do qual se sente que existe mais garantia de não julgamento, de neutralidade, mais fácil acesso ao outro que “escuta”. Noutras pessoas encontra-se o receio, o constrangimento perante a menor possibilidade de contacto físico, de controlo da situação.

Permitam-me chegar sempre à mesma conclusão. Não é a internet ou qualquer outra tecnologia ou facto da vida que é melhor ou pior. O que marca a diferença é a forma como o nosso ser aí se posiciona. É aquilo que somos que transportamos no olhar com que tocamos os factos da nossa vida. E isso não está certo nem errado.
É simplesmente assim…

Edite Tavares

ali_se disse...

Permita-me dizer que este post ultrapassa todos os limites!
E disso já eu esperava, não há limites para quem faz do «outro», dos «outros» alvos convenientemente necessários a serem usados como objectos de um consumo, abatidos ou a abater, em responsabilidades por assumir. Convém é garantir a vida assim, num futuro que não apraz saudável. E depois que sistemática ciência ou quem mais virá, tratar os psicólogos que tratam? Isto é um processo deveras doentio!… Não faz mal, não é? Pois!... E chegar a uma qualquer conclusão a terminar com um discurso destes: … o que marca a diferença é a forma como o nosso ser aí se posiciona. É aquilo que somos que transportamos no olhar com que tocamos os factos da nossa vida. E isso não está certo nem errado. É simplesmente assim…… Exacto, é o «deixa andar», logo se verá, e «táse bem» num mero «gozo» do «outro»!
E por créditos ou com crédito, interessa é ter-se crédito mas agora numa outra forma de amizade, de um «outro-amizade», a amizade pagável de um analista ou conselheiro credenciado para dar alvitres como se de entretenimento numa mais-valia ou mais-de-gozo se tratasse o outro e as vidas de todos outros.
Acredito que em breve toda esta forma de aproveitar o «outro» de uma interesseira forma de incomunicabilidade com o outro, fazendo dele um «coitadinho» que precisa de se posicionar psicológica e neuroticamente necessário a um sistema atrasado e obsoleto, a se lhe dar «pancadinhas nas costas» nesta sagazes «novas religiões» em seus «novos curas» do confessionável-pagável de uma sociedade de posses e conformista que se exige adaptável às esferas modelares da decadência, poderá talvez, vir a tombar nas mãos de suas próprias armadilhas conscientemente inconscientes (ou inconscientemente conscientes, tanto faz)!

Margot disse...

Em relação ao último comentário não há comentário possivel. Não acrescentou nada à discussão (que era o que mais me interessava ler aqui uma vez que para mim é um tema novo) e desacreditou tudo e todos como se o nosso trabalho duma brincadeira se tratasse...

Ricardo Miguel Pina disse...

Algo do qual qualquer ser comunicante que vive nesta sociedade com certeza já se terá apercebido é de que a Internet está, de facto, a mudar o conceito de relação tal como o entendemos. Por muito que se concorde ou discorde, existem serviços online para fazer amigo(a)s, para encontrar companheiro(a)s, etc. Nas camadas adolescentes existe inclusive o conceito de sucesso social ligado ao número de amigos que se tem no Hi5... Pode-se criticar tudo isto, mas é impossível negar que a Internet representa, actualmente, uma poderosíssima ferramenta de comunicação e que, em última análise e em sentido lato, nos relacionamos com tudo aquilo com o qual comunicamos. Penso que é também óbvio para todos nós que esta impregnação da internet no tecido social tende a aumentar exponencialmente...
A psicologia e os psicólogos não devem descurar este facto. Será, então, opção nossa se queremos adaptar a nossa metodologia e intervenção a esta tendência ou mantermos o nosso campo de acção dentro de portas... Pessoalmente penso que a «relação» há muito que saiu de dentro delas e se emancipou da proximidade física... e qualquer psicólogo é um profissional da «relação», agindo nela sobre ela e devendo saber medir o grau de profundidade com que o faz. Nenhuma psicoterapia de restruturação se pode fazer (talvez ainda...) via net, mas muitas outras formas de intervenção de importante função terapêutica existem que, a meu ver, se podem tornar mais acessíveis por intermédio de um simples «upload»...

Igor Lobão disse...

Acho que tanto o Ricardo como Edite ambos têm razão em relação ao Actual e ao Actual impacto da internet nas nossas vidas.

É de extrema importância e urgência reflectir-se sobre este tema e sobre um posicionamento ético dos psicólogos face a estas transformações.

Discordo do plano ético em que a Edite coloca as consultas "on-line", até porque os estudos feitos parecem-me desprezar o que quer dizer a palavra Ética. O estudo da palavra Ética deveria ser um estudo subsidiário do anterior. O que é a Ética, o que é a Ética tradicional, o que é a Ética no que se chama de pós-modernismo (temos importantes trabalhos sobre este tema como é o caso de Zygmunt Bauman).
Uma mera consulta no dicionário para se responder se algo é ético ou não parece ser um pequeno passo para se fugir ao que de Problemático" tem o tema.

Em relação ao comentário da Alice, apesar do estilo "cru" com que interveio, eu penso que disse algo, ou da forma como eu o li, que me parece deveras importante.

A psicologia tem que ter muito cuidado com as "armadilhas conscientemente inconscientes".

A descoberta do inconsciente por Freud foi algo de muito penoso para a humanidade. Basta ver as reacções a essa descoberta. O filme "Freud - Além da alma", John Huston em 1962, elaborado por Jean-Paul Sartre, dá um bom cenário das difuldades que ele encontrou.

Se a sua descoberta foi algo de muito penoso, eu penso que mais penoso ainda será manter essa descoberta viva.

Um bom exemplo do "funeral" do inconsciente é com o que se chama a "psicoterapia psicanalítica", nomeadamente, quando ela é conduzida por técnicos sem a sua análise feita. O que é uma "psicoterapia psicanalítica"? É-o somente porque utiliza alguns jargões psicanalíticos? Como é que alguém poderá reconhecer o que é da ordem do funcionamento inconsciente se não experimentou em si próprio? Quem diz a palavra inconsciente diz muitas outras, como é o caso do Sintoma. O sintoma na psicanálise, se me permitem, não é uma disfunção, é uma 'Diz'-função. Parece-me que sem a análise essas são palavras que em si surgem esvaziadas de um conteúdo "experimental", funcionando meramente num plano fantasmático. Esses conceitos são conceitos que são vividos, construidos na análise.

Por outro lado, Freud com a descoberta do inconsciente também quis trazer para o "palco" das vidas conscientes, e daí ser uma descoberta tão problemática e que fez sintoma, o facto de que passamos metade da vida a mentirmos a nós próprios, 'sem o sabermos'.

Ora, os psicólogos, como toda as pessoas, são atravessados pelo inconsciente, por determinações inconscientes (a menos que se reduza tudo ao racional, ao genético e ao biológico - mais uma forma de se enterrar o inconsciente).

É neste terreno que surge o fantasma do sofrimento do Outro, do sintoma do Outro. Um técnico nada sabe do sofrimento do outro. Sabe, quanto muito, algo sobre o seu sofrimento e mesmo assim mal. Eu penso que será consensual, que não poderemos saber o que vai na cabeça do Outro, o que não quer dizer que não se possa operar, trabalhar com "isso". É por isso que Lacan diz, "é importante não se compreender, quando pensarem que compreenderam é porque já deixaram de perceber o que fazem".

Assim interpelo a Edite. Quando afirma que existe "uma franja da população em intenso sofrimento psíquico", como se pode comprovar isso cientificamente, objectivar o subjectivo? O que nós saberemos sobre o sofrimento do outros, inclusivé, sobre os seus simulacros?

Por outro lado, se existe uma franja da população em intenso sofrimento, porque é que apenas se pensa em "curar" o seu sofrimento negligenciando-se o que age como causa material do seu sofrimento? Teremos medo de ao agir sobre essas causas primeiras, sejam lá o que elas forem, ficarmos sem emprego? Talvez fosse bom reflectirmos seriamente no que hoje causa sofrimento.
Penso que uma das causas possa ser a da velocidade, inclusivé a velocidade en se aceder a um psicólogo pela internet. Parece-me estar em causa um tempo, um tempo subjectivo necessário, remando contra a corrente dos tempos velozes de hoje, tempos velozes onde tudo se poderá tornar substituto, onde tudo passa sem existir nenhuma fidelidade a um objecto. Não é por acaso que hoje os problemas das pessoas surgem também em relação à vivencia da sua temporalidade subjectiva.

As melhores intervenções não são as paliativas e de curto prazo, mas as que proporcionam mudanças duradouras às pessoas.

Por fim, o que é o sofrimento, a irrupção psicoafectiva, a «ubris», isso que nos distingue dos outros animais, a intensidade e instabilidade com que se "goza" a alegria e a triteza? O que é que dela nos autorizamos a fazer?

Não é o excesso que faz parte da nossa essência, signo da desordem no mundo? Talvez seja então importante reflectirmos sobre as determinações inconscientes que subjazem à procura da psicologia e até que ponto não se estará a tornar a sua visão psicológica do mundo... excessiva.

Igor

Clara Pracana disse...

Meus caros amigos: já agora, tb gostava de me juntar à discusão. Penso que não há NADA que possa substituir a relação terapêutica, seja no divã seja no face a face.
No entanto, sou obrigada a admitir que o mundo muda, e com ele a realidade extrior, à qual, tal como à morte, ninguém pode fugir, embora haja quem pense que sim.
E este mundo que está a mudar (capitalismo? Alguém se insurgiu contra isso, mas tenho uma vaga ideia de que já havia neuroses ainda antes desse nefando regime aparecer à face da terra)- dizia eu, este mundo em mudança obriga-nos a outras maneiras de viver, outras maneiras de nos relacionarmos. Inclusive em matéria de psicoterapia/psicanálise. Ainda bem que há pessoas com coragem para pôr em causa tabus e avançar com novas propostas técnicas. Sem perder de vista o objectivo principal: levar a pessoa a ajudar-se a si própria, a encontrar-se, se possível a sofrer menos, a conseguir viver de uma maneira mais agradável, mais gratificante, melhor consigo própria e com os outros.

Teresa disse...

Eu, que não sou desta área, utilizo frequentemente a Internet (e-mails) como meio de comunicação, tanto no trabalho como no lazer. Neste meio, identifico vantagens e desvantagens. Para mim, a principal desvantagem reside na “frieza” da linguagem. Não se vê um olhar, não se ouve uma voz, e se não se tiver o “dom da escrita” não se transmite uma expressão. O que se lê, por vezes não corresponde ao que se escreve, o que pode levar (no meu caso já aconteceu) a erros de interpretação, mais ou menos comprometedores.

Parece-me portanto muito útil como forma de trocar informações, fornecer dados, e até expelir emoções. Agora, comunicação não é necessariamente relação, pois não?

Ricardo Miguel Pina disse...

Penso que a Teresa colocou uma questão muito pertinente para este debate: as implicações que a mudança do canal de comunicação necessariamente acarreta, neste caso um deslocamento da oralidade para a escrita. E sim, na escrita a expressão emocional (conhecida como prosódia na linguagem falada) implica um apuramento bem mais fino quer das suas competências expressivas quer compreensivas. Há ainda o facto de que o advento da Internet e dos telemóveis trouxe consigo uma modificação muito importante do estilo de escrita, o qual prima pela sua simplicidade, por ser prático, e não por ser expressivo, o que pode constituir um sério entrave a um acompanhamento psicológico on-line.

Percebo também a sua renitência ao ver comparadas «comunicação» e «relação». Estará com certeza mais habituada a ouvir «relação» no seu sentido mais estrito, o qual se refere a uma ligação privilegiada, ou íntima, entre dois intervenientes (relação amorosa, profissional, terapêutica, de amizade, conjugal, sexual, etc.). Mas se procurar, por exemplo, «relação» no Dicionário da Porto Editora on-line irá aparecer-lhe o seguinte:

1. acto ou efeito de relacionar;
2. ligação afectiva ou profissional;
3. ligação; conexão;

Se no ponto dois se encontram exemplos do que atrás citei (e que constituem o sentido do termo tal como ele é normalmente utilizado), no ponto três o sentido alarga-se a qualquer tipo de ligação e conexão. Significa isto que, no seu sentido lato, se estabelece uma relação com qualquer interveniente com o qual haja uma conexão. Ora, a conexão é estabelecida por intermédio da comunicação que «liga» os intervenientes. Ou seja, e neste sentido (lato, volto a frisar), comunicar e relacionar surgem como entidades diferentes, mas estritamente relacionadas.

Miguel Fabiana disse...

Bom Dia!

Julgo que não está em causa as especificidades tecnológicas de um determinado canal, como forma de interacção clínica. Provavelmente no tempo de Freud ou ainda pouco depois disso, o telefone comparado com a carta era eventualmente considerado um factor entrópico na relação ou na interacção psicoterapeuta/cliente. A internet, tal como o telefone hoje em dia, terá o seu lugar "natural" nesta interacção...é "dar tempo ao tempo" e a internet ocupará "naturalmente" o seu lugar: como forma de canal de primeiro contacto (email; chat; forum...) ou...outra.
Tal como noutros casos, este canal (internet e todas as suas variantes comunicaccionais) deverá merecer, assim que oportuno, a devida atenção por parte de quem faz investigação em psicologia.

Mesmo trabalhando numa área tecnológica muito avançada (telecomunicações, sistemas informação)e convivendo com a tecnologia todos os dias, quer como ferramenta de trabalho quer como utilitário na minha vida privada, não consigo deixar de "preferir" fazer psicoterapia na presença e face-a-face na presença da minha psicoterapeuta - provavelmente, será algo enquadrado naquilo que se designa por "resistência à mudança".

Cumprimentos,
Miguel

Igor Lobão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Igor Lobão disse...

De facto, cara Clara, tem toda a razão quando afirma que já existiam neuroses antes do discurso do capitalismo chegar. Eu diria que, para complementar o que disse, existiam até muito antes. Talvez desde que o homem começou a balbuciar as primeiras palavras.

O que torna bastante interessante a sua asserção é não ter reflectido no avesso dela. De facto não foram as neuroses que chegaram com o discurso do capitalismo, foram os psicólogos.
Interessante? Talvez não? Fica ao critério de cada um e do que singularmente se reflectir a partir daí.

Cumprimentos,

Igor

ADN disse...

Cara Edite Tavares,

Convidamo-la a conhecer o Psicologia.com.pt - O Portal dos Psicólogos e a publicar este seu artigo no portal.

Por favor visitar:
http://www.psicologia.com.pt
http://www.psicologia.com.pt/publicar

Expressividade disse...

Se é tecnicamente possivel medicina á distância, ainda melhor se for via online, tal como é possivel aconselhamento financeiro, ou de advocacia, tal já não me parece eficaz o aconselhamento (psicoterapias) online.Digo isto, precisamente porque reside no contacto EMPÁTICO entre o cliente e o técnico o primordial e fulcral meio de contacto face-to face, sem o qual qualquer tentativa de compreensão do "outro" não pode resultar,pelo menos de forma terapêutica mesmo. A capacidade de compreensão do profissional está verdadeiramente ligada ao contacto visual, seja das expressões corporais , seja da expressividade oral (linguagem). Mas mais ainda , depende dos "silêncios" que dizem , por vezes muito mais que uma "confissão " pouco sincera. É certo que cada vez mais se utiliza a internet para as actividades humanas, mas no que respeita a aconselhamento psicológico...ainda não! Tenham paciência...pode ser que um dia se consiga isso.Hoje não!

Hugo Jorge disse...

Gostei deste post. Sugiro uma visita ao meu blog

http://pazoriginal.blogspot.com/

RD disse...

Senhores,

Venho tarde e provavelmente não serei lida sem ser por quem recebe os emails do blog. Contudo não deixo de opinar sobre o tema que também me interessa por 3 grandes razões:

1. Porque sou de Filosofia, logo a linguagem não me é estranha.
2. Porque tenho formação em Ciências da Informação e entendo a necessidade da mudança e as consequências e resistências a estas.
3. Porque conheço alguém que está a se tratado pelo chamado "Acompanhamento Psicológico à Distância"

Estou de acordo com a Edite quando roça Heidegger e fala do nosso posicionamento no mundo, do ser aí. É sempre bom lembrar que antes de qualquer técnica desenvolvida e/ou disciplina que tenhamos adquirido nas nossas profissões, somos antes de mais pessoas que transportam sempre consigo a sua individualidade. E é sobre esta que assenta e se "molda" o resto. Por outro lado como sabemos que a nossa individualidade está em constante devir, também devemos trabalhar os nossos pre-conceitos que sustêm o nosso referencial de valores de forma a não encontrarmos tantas resistências e choques à mudança.

Sou a favor da exploração das novas tecnologias com a devida adaptação ética aos tempos e com isto quero dizer apenas isto. Há uma polémica enorme sobre estas questões, nomeadamente em blogs que agora não interessa para aqui, já que o acompanhamento não é apenas pela internet.

Também é preciso entender que este acompanhamento è distância não exclui uma sessão presencial pelo menos numa primeira vez e precisamente para que se crie a tal empatia ou relacionamento entre partes. Acontece e funciona. Quando o profissional se sabe colocar, acontece.

Para não continuar a contar o pai nosso ao vigário, concluo dizendo que espero que ajudem muitas pessoas com a seriedade que se espera de vós.

Votos de sucesso.

Anónimo disse...

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Jaqueline Bastos disse...

O texto é claro ao falar dessa modalidade. Não vem para substituir e sim para auxiliar. Eu procuraria esse tipo de ajuda, porque procurei uma terapeuta há pouco tempo, mas não me senti a vontade com ela.Saia das sessões com a impressão de que nada estava sendo feito, eram 30 minutos onde uns 10 ou 15 perdia-se com formalidades, anotações no computador, e lembrança do que tínhamos falado na última sessão.Parei porque me senti frustrada, pior do que quando entrei. Pra encarar novamente um terapeuta e ganhar a confiança dele acho que essa abordagem à distância seria ótima pra mim.

Claudia disse...

Bom dia!
Com certeza será um ótimo recurso aos que realmente precisam, e que de certa forma não procuram uma consulta face à face por falta de tempo, ou dinheiro, ou qualquer outro obstáculo, sei que minhas nessecidades serão atendidas via online, caso não sejam, serei pelo menos estimulada a buscar ajuda em uma consulta face à face.E assim como eu, todos tem uma livre escolha, cada um busque acompanhamento onde se sentir melhor.