quarta-feira, abril 09, 2014

SEXUALIDADE INFANTIL (III): HIPEREXCITAÇÃO E SINAIS DE ALERTA

Como vimos nas publicações anteriores, a masturbação tem início em idade bastante precoce e faz parte da exploração e descoberta normais da infância, tendo uma componente essencialmente sensorial associada à descarga de tensões. Não tem um caráter erótico, apesar da leitura que os adultos fazem do comportamento masturbatório estar muitas vezes centrada na erotização, que conduz à repreensão e à proibição. Esta atitude tende a acentuar a curiosidade, por um lado, e a tensão, por outro, reforçando a masturbação.

Mas há sinais que efetivamente podem revelar preocupações, sobretudo quando parece haver uma hiperexcitação. Como em quase todas as questões do desenvolvimento infantil, a intensidade, a frequência e a persistência indicam se existe ou não um problema.

Quando a masturbação não é sobrevalorizada pelos adultos e é abordada de forma tranquila e direcionada para um ambiente mais privado, mas a criança mantêm uma elevada frequência de comportamentos masturbatórios, parecendo absorta e alheada de tudo o resto, pode ser sinal de uma elevada carga ansiogénica que não está a ser capaz de aliviar de outra forma. Este funcionamento pode ser frequente em contextos familiares desorganizados, com elevados níveis de tensão, que levam a criança a refugiar-se no comportamento masturbatório, como se tentasse embalar-se para se tranquilizar. Crianças com dificuldades de expressão podem igualmente recorrer a esta forma de gratificação (em vez de, por exemplo, fazerem uma birra ou chorar quando não se sentem bem). Quando os adultos percebem que a masturbação é um refúgio, devem aproximar-se calmamente da criança, pegar-lhe, abraçá-la e até embalá-la e dizer “está tudo bem, estou aqui, estás segura/o”. Estas são crianças que habitualmente necessitam de uma contenção física por parte do adulto, às vezes bastando tocar-lhe com a mão para as tranquilizar.

Outras vezes existem explicações físicas para a manipulação excessiva dos genitais, especialmente nas meninas: infeções, alergias, dermatites, hipersensibilidade cutânea. Nestes casos, mais do que masturbação para obtenção daquele misterioso prazer, a criança toca, coça, esfrega para tentar aliviar o desconforto. Estas situações requerem observação médica.

Quando a masturbação assume um caráter sexual (erotizado) mais evidente (insistindo na penetração com objetos, simulando posições sexuais, contacto físico excessivo, repetição e insistência na masturbação após a adequada intervenção do adulto, envolvimento com crianças mais novas ou mais velhas), pode ser sinal de que a criança está a ser molestada ou, pelo menos, exposta a demasiada estimulação sexual.

Na minha anterior publicação, a propósito dos traumas da infância, referi que muitas vezes os pais acham que certas vivências não têm impacto na criança porque esta “ainda não tem idade para perceber”. Quanto menor a capacidade da criança compreender o que se passa à sua volta, maior a probabilidade de existir um impacto negativo.

Demasiada estimulação sexual não significa, necessariamente, abuso sexual (apesar de algumas vezes ter um impacto psicológico semelhante). Pode ser uma cena na TV ou em revistas ou partilhar o quarto com um irmão mais velho que poderá masturbar-se na presença da criança, achando que esta está a dormir. Dormir no quarto dos pais é, também, frequentemente uma fonte desta sobre-estimulação, e não é preciso que a criança seja muito crescida. Quando questiono sobre a sexualidade dos pais com o/a filho/a no quarto, a grande maioria responde “só fazemos quando está a dormir e não fazemos barulho” e não consideram qualquer hipótese da criança se aperceber. Pois a teoria e a prática comprovam que as crianças frequentemente assistem, pelo menos, a parte das relações sexuais dos pais: sons, nudez, movimentos e posições que podem ser vividas como uma experiência altamente violenta, que a criança não tem capacidade para compreender nem integrar. Esta experiência pode não só contribuir para uma grande inquietação e angústia, como ativar a masturbação e a sexualidade de uma forma pouco saudável.


É sempre difícil definir o que é um comportamento demasiado intenso, repetitivo e persistente. Na dúvida, procure o pediatra e solicite observação psicológica.

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

2 comentários:

João Ferreira disse...

Muito obrigado Alexandra por mais este texto tão claro e bem escrito sobre estas questões tão obscurecidas e tabus na sociedade.
Não é fácil encontrar este tipo de temas tão bem explicados e sistematizados!

Alexandra Barros disse...

Obrigada, João! Muitos dos temas sobre os quais escrevo surgem de algumas dúvidas e angústias que os pais me colocam em consulta.Procuro assim ajudar outros pais que tenham as mesmas questões.