sábado, janeiro 27, 2007

Ora ajudem-me lá a pensar

Tenho andado aqui a pensar porque é que um tema como a felicidade motiva tantos comentários e uma questão como a do microcrédito, não. Lembram-se desse meu post? Tinha a ver com a criatividade, a capacidade de iniciativa, a construção da autonomia, até a construção da identidade. O facto dá tanto mais que pensar quanto depois de ter ido à tal conferência falei com algumas pessoas amigas e conhecidas, que estão em situação de inactividade ou mesmo de desemprego, e reparei que a reacção era de aparente desinteresse ou mesmo de fuga à questão. Ou seja, nem queriam ouvir falar do assunto. Chego à conclusão de que a possibilidade de construirmos algo de raiz, com o esforço que isso obriga, é um assunto desagradável e que nos obriga a confrontar com uma série de questões penosas. E fico a interrogar-me sobre o aparente “conforto” de se ser desgraçadinho… Bem, o Freud já tinha falado disso. Até lhe chamou benefício secundário.
Será que isto é, por outro lado, uma questão muito portuguesa? Sociedades latinas, falta de iniciativa individual, etc. Será? Deixo aqui a pergunta.

6 comentários:

João Leitão disse...

Clara,

Creio que o vasto conjunto de competências pessoais, interpessoais e instrumentais que a criação dum projecto próprio exigem, são desde logo uma dificuldade. Parece-me também que o caldo cultural especificamente português, dificulta a massificação da aquisição dessas competências. Curiosamente, nos próximos meses vou ficar a saber se as tenho...

Pedro Correia Santos disse...

Olá Clara!

Pois é! Criar algo de raiz é um passo para o desconhecido... portanto a maioria das pessoas prefere os beneficíos secundários a suportar a frustração de um possível fracasso. O problema é que acontece o mesmo com a felicidade... só que é mais fácil falar da felicidade porque é algo que muita gente pensa que pode cair do céu!!!

Mas a felicidade tem causas e estas causas tem que ser construidas na nossa mente... mas não se preocupem muito com isso, nem se esforcem... podem sempre queixar-se de má sorte e de estar sempre a acontecer a mesma coisa...

Será que o velho Freud tinha razão com a compulsão para a repetição?

Espero ter-te ajudado a pensar... "Penso eu de que!"

Astride Almeida disse...

Olá Clara!
Arriscar-me-ia a afirmar que provavelmente a atitude referida é “made in Portugal” e não das sociedades latinas em geral. Atente-se na vizinha Espanha, o seu desenvolvimento económico é disso testemunha e outros exemplos não faltariam. Há uns anos atrás, talvez cerca de 20, a Grécia em termos de desenvolvimento económico estava aquém de Portugal; e hoje já não é visível o seu avanço?
Eventualmente o comportamento por detrás deste perfil económico é algo não destituído de determinadas (ou determinantes?) características psicológicas, como a falta de iniciativa individual (referida no seu post), uma resistência tremenda à mudança e até a lei do menor esforço (característica bem portuguesa) entre outras. Neste campo destaque-se o que fizeram a maior parte empresários portugueses há uns anos atrás (quase 20) com os fundos proveniente da CE. Recordam-se? Vigarice atrás de vigarice, meteram o dinheiro ao bolso, não investindo assim na modernização dos factores de produção. E agora? Agora deitam todos as mão à cabeça com a crise e aí observa-se mais uma vez outra característica bem portuguesa, a do muro das lamentações associada ao nada fazer senão queixarem-se. O ar cabisbaixo bem presente em muitas faces portuguesas, ao qual se junta o tal conforto de ser desgraçadinho que refere no seu post, o denominado benefício secundário, de que Freud já tinha falado.
Vi uma reportagem na Sic Notícias sobre a iniciativa louvável do Prof. Yunus, bem merecido Prémio Nobel Da Economia , não soubesse este economista que os subsídios frequentemente só servem para perpetuar a pobreza e não fomentar o crescimento económico.
Parabéns pelos seus posts que não deixaram passar despercebida esta iniciativa!

Ricardo Pina disse...

Olá Clara!

Se de facto se encontram determinadas características na população portuguesa que parecem, quase por excelência, sui generis, existe realmente um traço latino que é predominante. Nisso, discordo ligeiramente com a Dra. Astride Almeida. Embora reconheça a razão nas suas palavras quando se referiu à Espanha, por outro turno a Itália é o país da UE no qual a corrupção é exponencialmente mais alta do que em Portugal, tal como as influências produzidas pelo conhecido factor «c» e pela fuga fiscal.

Contudo, associado aos seus problemas decorrentes da fraca noção de «Estado» e do sentido de cidadania, Portugal acresce na sua falha narcísica que a meu ver é predominante. A mentalidade portuguesa é profundamente clivada - ora somos os mais atrasados, ou os melhores (muito por culpa do fenómeno futebolístico) -, incorrendo tão depressa em megalomanias como em derrotismos, caracterizada por um auto-conceito devastador e pela incapacidade de dizer bem de alguma coisa, contrapondo com a nossa tenacidade quando se trata de dizer mal... E sim, mergulhamos na nossa auto-comiseração e naquilo que não fizemos ou dissemos, ao invés de investirmos de forma pró-activa no presente e no futuro... Acredito que este nosso traço também facilita em muito a taxa de incidência de depressão...

A História de Portugal merecia ser analisada de um ponto de vista psicológico.. Talvez o nosso Ideal do Ego conserve reminiscências algures do Séc. XIV e do Império Perdido... Acho p.e. incríveis as semelhanças entre o sebastianismo e a melancolia... E o Mapa Cor-de-Rosa foi um traumatismo precoce e desorganizador... Ou será que eu já estou aqui a divagar;)?

Cumprimentos

Miguel Fabiana disse...

"Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela." - George Bernard Shaw

...medo do que? da Liberdade ou da Responsabilidade??


PS: desculpem a acentuaçao, ou a falta dela; o meu teclado nao funciona bem.

Anónimo disse...

Olá ,
Devo dizer -lhes que sempre fiz o que quis sou uma pessoa livre , com iniciativa ,Mas.... tudo isto me é muito caro .
Muitas vezes penso: se não seria melhor cumprir um horario , um emprego estavel uma vida dita"normal" ..Até quando podemos viver todos dias com o desconhecido , com o fracasso depois de conhecer o sucesso e voltar ao fracasso.
Desde que começo o dia até acabar é uma luta constante .Resta-me as imensas experiências que vivo dia a dia , as imensas pessoas que conheço de diversas faixas etarias , nivel cultural etc.

Parabnes pelo vosso Blog .