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segunda-feira, janeiro 04, 2016

Experiências Adversas na Infância: Alterações cerebrais críticas ao longo da vida


Em continuidade com o artigo anterior enunciamos algumas das mais importantes alterações cerebrais ligadas às experiências adversas de infância (EAI), das quais resultam quase sempre o trauma, a psicopatologia e as perturbações de personalidade, mas mais concretamente, a dificuldade crónica em lidar com o presente e com o futuro ao longo da vida.


1. Alterações Epigenéticas

Quando somos sistematicamente empurrados para situações indutoras de stress durante a infância ou a adolescência, a nossa resposta fisiológica ao stress muda para um estado exacerbado, e perdemos a capacidade de responder apropriadamente e eficazmente a futuros stressores – 10, 20, e até 30 anos depois. Isto acontece devido a um processo conhecido como metilação de genes, no qual pequenos marcadores químicos, ou grupos de metilo, aderem aos genes envolvidos na regulação da resposta ao stress, e previnem esses genes de desempenharem as suas funções. À medida que a função destes genes é alterada, a resposta ao stress torna-se reconfigurada para “alta” para a vida, promovendo inflamação e doença.
Isto pode tornar-nos mais propensos a reagir exageradamente aos stressores da vida diária que encontramos na vida adulta – uma conta inesperada para pagar, um desacato com o companheiro, ou um carro que se coloca à nossa frente na auto-estrada, gerando mais inflamação. Isto, por sua vez, predispõe-nos a um corpo de doenças crónicas, incluindo as doenças auto-imunes, doença cardíaca, cancro e depressão.

Os investigadores de Yale descobriram recentemente que as crianças que sofreram stress crónico e tóxico demonstravam alterações “ao longo de todo o genoma”, em genes não apenas responsáveis pela regulação da resposta ao stress, mas também em genes implicados num vasto leque de doenças do adulto. Esta nova pesquisa sobre trauma emocional precoce, alterações epigenéticas, e doenças físicas do adulto quebra demarcações duradouras entre aquilo que a comunidade médica tem sempre considerado ser a doenças “física” em contraposição com aquilo que é “mental” ou “emocional”.

2. Tamanho e Forma do Cérebro

Os cientistas descobriam que quando o cérebro em desenvolvimento é cronicamente sujeito a stress, liberta uma hormona que na verdade reduz o tamanho do hipocampo, uma área do cérebro responsável pelo processamento da emoção, da memória e da gestão do stress. Estudos recentes a partir de técnicas de ressonância magnética sugerem que quanto mais alto o indicador de experiências adversas de infância (EAI), menor a quantidade de matéria cinzenta ele ou ela apresentam noutras áreas-chave do cérebro, incluindo o córtex pré-frontal, uma área relacionada com a capacidade de tomada de decisão e capacidades de auto-regulação, e a amígdala, ou centro de processamento do medo. As crianças cujos cérebros foram alterado pelas EAIs são mais propensas a tornarem-se adultos que reagem excessivamente a stresses menores.

3. Poda Neural

As crianças têm uma sobreabundância de neurónios e ligações sinápticas; os seus cérebros estão fortemente a trabalhar, a procurar fazer sentido do mundo à volta delas. Até à bem pouco, os cientistas acreditavam que a perda de neurónios em excesso e ligações resultava somente da não utilização dos mesmos, mas um novo advento surgiu, relacionado com o desenvolvimento do cérebro: as células não-neuronais do cérebro, conhecidas como microgliócitos, que constituem um décimo de todas as células do cérebro, e são de facto parte do sistema imunitário – participam no processo de poda neural. Estas células também engolfam e digerem celular inteiras e detritos celulares, desempenhando portanto um papel fundamental de “limpeza da casa”.

Todavia, quando uma criança enfrenta stress crónico inesperado, ou EAIs, os microgliócitos podem passar a funcionar mal e expelir neuroquímicos que resultam em neuroinflamações. Esta neuroinflamação crónica que passa facilmente despercebida pode conduzir a alterações que reconfiguram o tom do cérebro para toda a vida.

Isto significa que as crianças que chegam à adolescência com um historial de adversidade e lhes falta a presença de um adulto consistente e cuidador que os ajude na adversidade, podem tornar-se mais propensos a desenvolver perturbações do humor ou sofrerem comprometimentos nas capacidades de funcionamento executivo e de decisão.

4. Telomeres

O trauma precoce pode dar aparência mais “velha” a uma criança, em termos emocionais, relativamente aos seus colegas da mesma idade. Neste momento, cientistas da Universidade de Duke; Universidade da Califórnia em São Francisco; e da Universidade de Brown descobriram que as EAIs podem envelhecer prematuramente as crianças igualmente a um nível celular. Adultos que enfrentaram traumas precoces demonstram uma maior erosão naquilo que se chamam os telomeres – os invólucros protetores que se encontram no final das cadeias de ADN, como os invólucros dos atacadores de sapatos, para manter o genoma saudável e intacto. À medida que os nossos telomeres se desgastam, ficamos mais propensos a desenvolver doenças, e as nossas células envelhecem mais rapidamente.

5. Rede neural em modo padrão (Default Mode Network)

Dentro de cada um dos nossos cérebros, uma rede de neurocircuitos, conhecida como o “rede neural em modo padrão”, ressoa silenciosamente, como um carro parado em frente a um semáforo. Une áreas do cérebro associadas com a memória e integração do pensamento, e está sempre em standby, preparada para nos ajudar a perceber o que fazer em seguida. “A conectividade densa nestas áreas do cérebro ajudam-nos a determinar aquilo que é e não é relevante, para que possamos estar preparados para o que quer que o nosso ambiente nos solicite”, explica a neurocientista Ruth Lanius.

Quando as crianças enfrentam adversidade precocemente e são rotineiramente impulsionadas a um estado de luta ou fuga, a rede neural em modo padrão começa a desligar; não ajuda mais a criança a perceber o que é relevante, ou o que precisam fazer em seguida. De acordo com Lanius, as crianças que enfrentaram traumas precoces apresentam menor condutividade na rede neural em modo padrão – mesmo décadas após a ocorrência do trauma. Os seus cérebros aparentam não entrar na posição saudável de prontidão – e por tal, elas podem ter problemas em reagir adequadamente ao mundo em redor.

6. Ligação Cérebro-Corpo

Até há bem pouco tempo, era cientificamente aceite que o cérebro estava separado do sistema imunitário do corpo. Mas parece que tal não é o caso, de acordo com um estudo revolucionário levado a cabo por investigadores da University of Virgina School of Medicine. Os investigadores descobriram que existe um caminho esquivo entre o cérebro e o sistema imunitário, via dos vasos do sistema linfático. O sistema linfático, que incorpora o sistema circulatório, transporta “a linfa” – um liquido que ajuda a eliminar toxinas, e move células imunitárias de um local do corpo para outro. Agora sabemos que o percurso do sistema imunitário inclui o cérebro.

Os resultados deste estudo têm profundas implicações para a pesquisa das EAI. Para uma criança que viveu adversidade, a relação entre o sofrimento mental e físico é forte: os químicos inflamatórios que inundam o corpo da criança quando ela é cronicamente exposta a stress não estão confinados somente ao corpo.

7. Conectividade Cerebral

Ryan Herringa, um neuropsiquiatra e professor assistente de psiquiatria da infância e adolescência, descobriu que as crianças e os adolescentes que vivenciaram adversidade crónica na infância demonstravam ligações neuronais mais fracas entre o córtex pré-frontal e o hipocampo. As raparigas demonstravam também ligações mais fracas entre o córtex pré-frontal e a amígdala. A relação córtex pré-frontal – amígdala desempenha um papel essencial em determinar o quão emocionalmente reativos tenderemos a ser face àquilo que sucede connosco no nosso dia-a-dia, e o quão provável será percebermos essas situações como ansiogénicas ou perigosas.

De acordo com Herringa:

“Se você é uma mulher que enquanto menina vivenciou EAIs, e tal enfraqueceu estas ligações cerebrais, poderá esperar vivenciar um maior nível de medo e ansiedade em quase todas as situações ansiogénicas que encontrar ao longo da vida.”

Estas ligações enfraquecidas relacionam-se com um maior risco de desenvolvimento de ansiedade e depressão durante a adolescência tardia. Isto explica, em parte, o porquê das raparigas apresentarem um risco em dobro de desenvolver perturbações de humor, quando comparadas com rapazes.

Esta ciência pode ser avassaladora, especialmente para aqueles de nós que são pais. Portanto, o que podemos fazer caso você ou um filho que ame foi afetado pela adversidade precoce? As boas notícias são que, à medida que o nosso conhecimento científico aumenta na área da afetação do desenvolvimento cerebral mediante a adversidade, também aumenta o nosso insight científico sobre como oferecer aos nossos filhos uma parentalidade resiliente, e como podemos todos tomar pequenos passos para curar o corpo e a mente. Tal como as feridas e as nódoas negras se curam, tal como podemos reabilitar a tonalidade muscular, também podemos recuperar a função em áreas do cérebro sub-conectadas. O cérebro e o corpo nunca são estáticos; eles encontram-se permanentemente num processo de tornar-se e mudar.

"Tradução livre da Psicronos"

quinta-feira, setembro 04, 2014

Tráfego de mulheres para prostituição: Uma reflexão

Pensando um pouco sobre a situação específica das mulheres vítimas de tráfego humano, são frequentemente mulheres oriundas de meios socioeconómicos muito pobres, com situações familiares muitas vezes pautadas pela negligência e/ou pelo abuso, onde os vínculos que se formam são frágeis ou mesmo inexistentes, destruidos pelas próprias circunstâncias.

Sem vínculos, a experiência emocional interior,  na profundidade do Eu e por debaixo das várias camadas de preocupações, sentimentos e pensamentos, é frequentemente a de ausência de uma referência interna de um lugar onde outrora estas mulheres se pudessem ter sentido devidamente cuidadas, apoiadas nas suas dificuldades, compreendidas e amparadas nas suas angústias e preocupações. É um lugar que precisa estar lá no inicio das nossas vidas, continuamente, cuja experiência precoce e contínua de tal conduz a um sentimento interno de um porto de abrigo sempre disponível - esse lugar é habitualmente, para a maioria de nós, uma figura materna suficientemente boa, ou um substituto adequado.

È um vazio interior persistente - frequentemente abafado ou curto-circuitado por outras preocupações do quotidiano, que servem uma função defensiva contra esta forma particular de dor interior. É, por exemplo, a percepção de que não se pode parar, que há muita tarefa para fazer, que a vida não permite o parar para refletir, para sentir. No fundo é a necessidade defensiva da própria pessoa organizar a sua vida de tal forma que acaba por criar essa mesma percepção da realidade. Mas por vezes não há mesmo a capacidade para se elaborar a experiencia em termos de sentimentos e pensamentos, como se o aparelho psiquico nunca tivesse sido particularmente utilizado nesse sentido, pela própria ausencia de alguém, um cuidador, que cuida pela sensibilidade e pela preocupação em ajudar a gerir as emoções dificieis e a organizar o pensamento.

Esse vazio, enquanto ausência interna de uma figura cuidadora (e da respetiva capacidade de cuidar), implica também a relativa despreocupação face a nós mesmos, face à nossa saúde, e ligado a tal, a dificuldade ou incapacidade de nos termos profundamente em consideração, de cuidarmos devidamente de nós mesmos. Não nos autoconsideramos de forma natural, espontânea e suficiente. Essa consideração sobre nós mesmos, essa autoestima, é baixa. Por outras palavras, como se a possibilidade e função de cuidarmos genuinamente de nós mesmos e de nos protegermos (assim como uma mãe cuida do seu bebé, na sua dependência e vulnerabilidade) estivesse ausente, ou existindo, surgisse enquanto algo muito forçado, penoso ou não natural, não interiorizado. Como o médico que insiste contínuamente para que o seu paciente cuide melhor de si. São com frequência os cuidados do médico - a sua sensibilidade, a sua disponibilidade, a sua preocupação e o seu interesse pelo paciente - que capacitam o próprio paciente a cuidar melhor de si, nomeadamente quando o médico, ou o cuidador, não estão presentes (e dado que se consiga receber internamente esses cuidados e os mesmos possam sobrevivier à ausência ou separação física em relação ao cuidador).

Um vazio é também o sentimento de não existir ninguem no mundo genuinamente preocupado connosco e suficientemente interessado em nós. Alguém que para nós seja especial e fundamental, e para quem sintamos que somos importantes, não porque temos esta ou outra qualidade ou aspeto que suscita interesse, mas apenas e simplesmente porque existimos e porque somos nós mesmos. Assim como uma mãe e também um pai são no incio da vida o centro do mundo de uma criança, tal como a criança é centro das atenções dessa mãe e desse pai.

Para muitas das mulheres vitimas de tráfego humano, a imagem de alguém que lhes promete proteção e abrigo acaba por ser irresistível, pois apela a algo que no fundo se sentiu que nunca se teve e se necessita muito.

Sucumbindo à sedução, no contexto desta enorme fragilidade constituicional do Eu e da promessa de dinheiro/sustento rápido - ainda que não necessáriamente fácil(!)-, estas mulheres rápidamente se permitem ser arrastadas para uma situação de perda total de controle sobre a situação, deparando-se com perda da autonomia e livre arbitrio perante aqueles (frequentemente idealizados no inicio) sobre quem depositaram toda a confiança. Instalada esta dependência total onde a vitima está agora desprotegida e frequentemente se econtra num pais diferente sem possiblidade financeira de voltar, surgem os abusos e as ameaças, diretos ou indiretos (feitos a colegas que servem enquanto "exemplos" do que pode acontecer a estas mulheres caso desobedeçam).

Tal pode mesmo configurar a situação de poder desmedido ou situação de mestre/escravo descrita no artigo anterior sobre o sindrome de Estocolmo.

terça-feira, setembro 02, 2014

Sindrome de Estocolmo: 41 Anos

No passado dia 26 de Agosto completaram-se 41 anos desde a origem do famoso "Sindrome de Estocolmo".

Trata-se de um estado psicológico que surge em situações frequentemente traumáticas, nas quais quem sofre deste sindrome se identifica e inclusivé se preocupa com os seus sequestradores. Trata-se de uma manobra psicológica, um mecanismo de defesa mobilizado pelo desespero e pela situação limite do sequestro, que representa em ultima análise um ato inconsciente de auto-preservação.

Esta condição psicológica é mais frequente em situações que envolvem a vitima ser feita refém de alguém, ou situações de rapto, contudo, o sindrome de Estocolmo também surge em relações de mestre e escravo, casos de esposas vitimas de agressões e membros de cultos destrutivos.

No dia 26 de Agosto de 1973, a força policial de Estocolmo cercou Jan-Erik Olsson, que assaltava então um banco no centro de Estocolmo. Olsson fez quatro reféns, durante um periodo de 6 dias. Após a captura de Olsson e de um amigo seu, que entretanto conseguiu entrar no banco enquanto parte das negociações anteriores entre Olsson e a policia, um dos reféns, agora em liberdade, abacou mesmo por criar um fundo de ajuda ás despesas legais de defesa dos seus sequestradores. Nasceu então o termo "Sindrome de Estocolmo".

No contexto de uma relação invulgar de poder desmedido e de isolamento relativamente a opiniões exteriores sobre o captor, podem surgir verdadeiros delírios na mente da vítima de sequestro. No contexto da obediência total, sob a percepção de que a fuga não é possível, sob a ameaça de morte (e morte da familia e dos entes queridos) pelo sequestrador, o gradual perceber pela vítima daquilo que despoleta a violência do captor - no sentido da sobrevivência - acaba por levar a vítima a sentir que conhece o captor.  Esta percepção conduz a que uma intimidade seja sentida com o captor. Aqui, o menor ato de generosidade, que pode por exemplo ser o não assassinato imediato da vítima, passa a ser gradualmente tomado por benevolência.  Gradualmente o captor passa a ser percebido enquanto o salvador, e a confiança nos outros exteriores que efetivamente podem proteger, pode perder-se. Oblitera-se a percepção de que a figura agora percebida como boa e protetora é também a fonte de todo o dano e prejuizo.


quarta-feira, abril 16, 2014

Provas científicas e validade do EMDR


Muitas pessoas já ouviram falar do EMDR como método ou abordagem integrativa psicoterapêutica que promete resultados, ou pelo menos uma maior eficácia, na ultrapassagem de uma variedade de situações traumáticas. Nestas se incluem as experiências relacionadas com a guerra, as situações de abuso sexual e/ou físico ou de negligência na infância, desastres naturais, assalto ou ataque, traumas cirúrgicos e de diagnóstico de doenças crónicas, acidentes de viação e de trabalho. Dos traumas grandes aos traumas pequenos, ou vice-versa, abrangendo as situações cuja perturbadora vivência deixou na nossa mente/corpo uma espécie de caixa de ressonância (aglomerado de memórias, imagens, emoções e sensações) muito sensível a tudo aquilo que consciente ou inconscientemente toca nos seus gatilhos.

Assim, pode acontecer que uma experiência negativa intensa vivida há muitos anos, por vezes está recalcada e foi esquecida, possa continuar a produzir efeitos que abalam a qualidade de vida e o bem estar de uma pessoa, sem que esta consiga conscientemente produzir uma ligação entre a situação original e a situação desencadeante, que justifique as suas reações - por exemplo, impulsividade exagerada ou intempestividade, perda de auto-controlo, ataque de ansiedade, stress, fuga e medo irracionais. Muito se tem avançado nas últimas décadas no campo das neurociências mas ainda nos é algo difícil compreender como se estabelecem no cérebro estes processos, e como se desencadeiam reações desproporcionadas e desadaptadas  que podem, entre muitos outros efeitos,  limitar a qualidade das interacções com os outros e afectar a auto-estima.

O EMDR, enquadrado e aplicado por psicoterapeutas, não é uma moda, é um tratamento psicológico que apesar da sua recência já possui um corpo teórico e prático bastante consistente e um conjunto de evidências científicas que o validam, reflexo da investigação acumulada, que fazem com que esta abordagem psicoterapêutica seja considerada um tratamento eficaz e internacionalmente recomendado para as perturbações de stress pós-traumático(PSPT).  Um já vasto conjunto de organizações recomendam o EMDR nas suas  orientações práticas de métodos de tratamento para o PSPT, onde se incluem a Organização Mundial de Saúde (2013), a Associação Psiquiátrica Americana (em 2004 e 2010), o Departmento dos Assuntos de Veteranos e pelo Departamento de Defesa dos EUA (em 2010), a Sociedade Internacional de Estudos de Stress Traumático  (em 2009), o National Institute for Clinical Excellence do Reino Unido (em 2005) e outras organizações pelo mundo fora, incluindo a maioria das Associações de Psicólogos e de Psiquiatras.

Com um nome pouco apelativo, a meu ver, o EMDR é todavia uma terapia poderosa que produz resultados surpreendentes e que vale a pena conhecer.

Abaixo seguem os links para uma entrevista dada pela Dr. Francine Shapiro (criadora do EMDR, e fundadora do EMDR INSTITUTE) ao New York Times (2012):



e para um outro artigo (Dr. James Alexander) que documenta a perspectiva neurológica do EMDR:



Isabel Botelho
Psicóloga-Psicoterapeuta-Executive Coach

quarta-feira, abril 02, 2014

PEQUENOS GRANDES TRAUMAS DA INFÂNCIA

Quando se fala em EMDR, fala-se obrigatoriamente em trauma, o que pode levar a algum reducionismo de uma prática que se tem revelado abrangente, pois há tendência a associar o trauma a situações catastróficas. Se bem que o EMDR começou por ser essencialmente utilizado em pacientes com Perturbação de Stress Pós-Traumático (grande trauma), tem aplicação em quase todas as situações em que existe uma intensa experiencia emocional negativa associada a episódios “menores” (pequeno trauma). Se os grandes traumas são relativamente fáceis de identificar e mobilizar ajuda (acidentes, assaltos, mortes, bullying, abuso sexual, abandono), os pequenos traumas nem sempre são devidamente identificados e valorizados.

Na minha prática clínica com crianças, os pais perguntam frequentemente “qual é a causa?”, procurando identificar a origem da problemática dos filhos. Se muitas vezes a história individual e familiar ajuda a compreender, pelo menos, algumas das causas, outras vezes não conseguimos fazê-lo. Sabemos, sim, que aconteceu algo em determinada altura do desenvolvimento da criança que foi vivido com extrema intensidade. O que costumo explicar aos pais é que existem situações que são relativamente inócuas para os adultos e passam até despercebidas, mas que são vividas com grande angústia pela criança.

A infância é marcada por tentativas repetidas, fracassos e, finalmente, êxitos. Normalmente, as crianças têm o equipamento necessário para lidar com estes desafios. Para atingir estes feitos, a criança precisa de sentir que é amada, que tem valor, que é capaz e que está segura. Episódios de aparente pouca relevância, como uma queda no recreio do jardim-de-infância, engasgar-se com a comida, assistir a uma cena na TV, ouvir um estrondo repentino, ter um pesadelo, observar uma expressão facial de apreensão no pai ou na mãe, ter um mau resultado na escola, assistir a uma discussão, podem pôr em causa o sentimento de valentia e mestria que apoiam o percurso do desenvolvimento e o caminho para a independência. Frequentemente os adultos desvalorizam algumas destas situações porque as consideram normais ou pouco importantes. Por outro lado, poderão achar que a criança nem percebe o que se passa, por isso não vai ficar afetada. No entanto, a capacidade que as crianças têm para compreender a situação e expressar o que sentem é bastante inferior à intensidade com que a vivem.

Na infância as experiências são essencialmente sensoriais com emoções em bruto e, dada a dificuldade em elaborá-las, o reflexo surge sobretudo ao nível do comportamento. Dada a incapacidade em interpretar logica, racional e verbalmente os eventos, as crianças “gravam” na sua mente mensagens negativas que tendem a afetar o seu bem-estar e o seu funcionamento de forma prolongada, muitas vezes até à idade adulta. Alguns exemplos destas mensagens são: estou em perigo, não presto, não sou capaz de fazer nada, ninguém gosta de mim. Quantos de vós, adultos, se reconhecem nestas crenças negativas e como estas interferem na vossa vida pessoal, social e profissional? Imaginemos agora o que estas perceções de si próprias fazem a crianças com a vulnerabilidade típica da idade e sem a capacidade para as perceber, dizer e expressar.

Há tempos, um rapaz de 12 anos que apresentava “acessos de fúria” (entre aspas porque na verdade o que fazia era largar os livros e fechar-se no quarto) quando se confrontava com uma dificuldades escolar, tinha igualmente uma postura adultomorfa e erguia todas as suas defesas quando eu procurava chegar às suas emoções. Cerca de dois anos antes, houve um desacato à porta do prédio entre os pais e um vizinho, que acabou em agressões físicas. Este rapaz, na altura do conflito com 10 anos, ligou três vezes para o 112. Continuava, no entanto, a repetir “eu não fiz nada, devia ter feito alguma coisa para acabar com aquilo”, revelando um sentimento de impotência e uma crença de que devia ter feito mais do que fez. Três anos antes, a avó deste rapaz faleceu. Chegou a vê-la no hospital em fase terminal, mas não se despediu. Depois da morte da avó, começou a revelar grande agressividade na escola, batia nos colegas, atirava com as cadeiras. “Fui muito mau para a minha professora, sou mau quando sinto coisas”. O EMDR ajudou a perceber, mais uma vez, que o pensamento negativo era de que nada fez para salvar a avó. O processamento destas situações ajudou a desbloquear estas crenças negativas e irracionais (sou fraco, sou mau), permitindo a instalação de recursos e respostas mais adaptativos, associados a um pensamento mais positivo: este rapaz fez o que pôde e expressou-se como foi capaz, tendo em conta a sua idade. Passou a ser mais capaz de entrar em contacto com as suas vulnerabilidades, aceitando-as e reagindo de forma ajustada. As dificuldades escolares acentuavam esta perceção de que não era capaz porque era fraco, reagindo com “fúrias” que ao mesmo tempo que o faziam sentir-se mais forte, reforçavam igualmente a ideia de que era mau.

A psicoterapia EMDR foi bastante importante neste caso, tendo em conta que existiam vivências traumáticas que o colocavam numa posição muito defensiva e difícil de quebrar com outra abordagem terapêutica.

Termino com alguns exemplos de reações que as crianças podem apresentar depois de uma vivência traumática (imediatamente a seguir ou algum tempo depois), retirados do livro “Usando EMDR com ninõs”:

-Alterações do Sono: pesadelos, sono agitado, falar/gritar durante o sono, dificuldade em adormecer, medo de ir dormir, enurese noturna;
-Culpa: responsabilizar-se pelo acontecimento e por tudo o que acontece, comportamento excessivamente desajustado que implica castigos ou, pelo contrário, comportamento excessivamente adequado para a idade;
-Regressão: comportar-se como um bebé, dependência excessiva, dificuldade em ficar sozinho, procura excessiva de atenção);
-Medo: medo de aspetos diretamente relacionados com o evento, reação excessiva a ruídos fortes ou movimentos repentinos, reatividade excessiva ao toque, medos vários;


Muitas destas reações são normais e expectáveis em algumas fases do desenvolvimento. É a intensidade, a frequência e a persistência que traduzem que a criança não está a ser capaz de lidar sozinha com os acontecimentos.

Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta EMDR
Responsável pelo Departamento da Infância

quinta-feira, março 13, 2014

PRAXES: uma perspetiva psicológica


Depois de algum tempo decorrido sobre o debate público sobre as praxes (suscitada sobretudo pelas mortes de estudantes alegadamente em contexto de praxe), gostava de escrever algo sobre o assunto. Poderá já ser algo tardio mas tem a vantagem de poder ser escrito e lido de forma mais ponderada e menos reativa. 

Um dos debates públicos a que assisti sobre o tema e que me chocou foi o debate feito no programa da RTP1, os "Prós e Contras" (http://www.rtp.pt/play/p1099/e142806/pros-e-contras). Começou como costuma começar o programa, com uma video-reportagem a fazer o apanhado da situação, neste caso das praxes. Este vídeo mostrava trechos de praxes de norte a sul do país onde estavam presentes algumas das faculdades representadas por estudantes no programa. Como estudante que fui da Universidade de Lisboa e tendo assistido a muitas praxes em redor da mesma (durante e pós curso), as atividades que vi retratadas na video-reportagem correspondiam ao tipo de atividades que eu já conhecia. 

video

Qual não foi o meu espanto quando vejo todo um programa de excelência de debate e reflexão pública a ser quase completamente sabotado por fenómenos grupais de denegação e ataque. Não me refiro apenas à manifestação exaltada, ao estilo de um claque de futebol, da plateia, mas sobretudo a uma posição altamente defensiva dos discursos dos principais intervenientes e representantes da posição pró-praxe. O fenómeno foi tão intenso, a meu ver, que acho merecedor de uma análise per se

Muito simplesmente, todos os representantes de Associações de estudantes das diversas Universidades, a par do Professor de Direito, Eduardo Vera Cruz, foram unânimes e peremptórios em afirmar, não só que a video-reportagem não representava a prática comum e a essência das praxes, como até se sugeriu ter havido, consciente ou inconscientemente, uma seleção enviesada dos piores trechos por forma a passar uma imagem distorcida e desfavorável das praxes. Desta forma, consegui-se chegar ao fim de um programa relativamente longo, sem que a quase totalidade dos estudantes admitisse que as praxes são atividades semelhantes às filmadas publicamente, nem tão pouco se definisse mais concretamente o que são então as praxes na perspetiva dos defensores das mesmas (houve sobretudo pseudo-argumentos que desviavam a atenção exultando as práticas grupais ligadas à Tunas, às serenatas, etc. que muito pouco têm a ver com as praxes propriamente ditas). 

Ou seja, não foi possível haver consenso sobre a primeira questão mais básica: o que são as praxes? Afinal de contas o problema todo residirá na observação, descrição e interpretação "objetiva" da realidade do que se passa nestas atividades grupais. E é esta questão que não pôde ser aprofundada neste grande debate, quer por ter sido desvirtuada pela maioria, quer por não ter havido tempo ou outros níveis de análise mais penetrantes. Gostaria de explorar então um pouco desta questão, relacionando-a com o fenómeno acontecido neste debate.

Sem me querer alongar muito, a praxe corresponde, a meu ver, a um ritual grupal de iniciação/integração num grupo. Mas definir a praxe apenas por esta definição parece não captar a especificidade da maior parte da natureza destas práticas, envolvendo atitudes de domínio e comando, hierarquia, submissão e mesmo humilhação, mais ou menos, coercivas e violentas, principalmente psicologicamente mas também fisicamente (penso não ser assim tão raro). E sobre isto destaco dois pontos:

1- O principal argumento pró praxe parece ser o de que é um importante meio de integração, conhecimento uns dos outros e aprofundar dos laços de formas divertidas. A questão que fica é: será que para haver integração e interação entre colegas recém-chegados e colegas mais velhos, tem de se recorrer a práticas de supremacia e dominação (ainda que, como disse, com diversos níveis de brincadeira, afetividade, coerção ou pressão)?

2- O segundo ponto é talvez o busílis de toda a questão: desde quando é que as brincadeiras que se fazem nas praxes podem ser qualificadas na sua maioria por adjetivos tão pesados como "violentas", "humilhantes", "dominadores", " de submissão", "coercivas"? É aqui que penso haver uma grande dificuldade, não só ao nível dos defensores das praxes, como ao nível mais abrangente da sociedade. Penso que esta é uma das questões que merecia ser debatida e pensada a um nível mais geral e profundo. Tem que ver com o que penso ser ainda, uma transição de valores culturais. Antigamente, por exemplo, a escravidão não era uma violência era normal e natural; antigamemte o voto exclusivamente masculino não era discriminatório, era realista e normal; antigamente a violência doméstica não o era, era simplesmente banal e nada de mais; antigamente as crianças eram posse dos progenitores e desprovidas de direitos, hoje em dia cada vez mais são consideradas como sujeitos com uma dignidade e direitos próprios. Ou seja, a sociedade tem caminhado cada vez mais no sentido de uma maior sensibilidade e proteção dos mais fracos, valorizando a igualdade e liberdade de todos em cada vez mais situações. 

No entanto, estamos longe de ser capazes de discernir com a clareza e indignação suficientes, muitas formas de violência que hoje ainda passam muitas vezes por normais e abaixo do limiar da preocupação/consciência. Não são bem "violências", são manifestações mais ou menos ajustadas ou dentro do socialmente aceitável e que não se justifica serem "dramatizadas". Um destes exemplos é o uso da violência física na educação dos nossos filhos. Dá muito trabalho educar sem bater: exige uma auto-regulação constante, um grande trabalho a montante que envolve muita disponibilidade, paciência e intervenção firme, calma e atempada. É quando algo de entre isto tudo falha que surge a necessidade de coerção ou punição física como descarga da tensão do pai e controlo desesperado da conduta do filho. Esta questão é atualmente controversa por levantar muitas questões de natureza prática e que não terei oportunidade de desenvolver aqui mas que poderá ser aprofundada de forma muito prática e elucidativa no livro "Educar sem bater", de Luís Maia.

Mas isto tudo para voltar à questão, que penso colocar-se neste momento na mente de muitos estudantes defensores da praxe: desde quando é que as brincadeiras que se fazem nas praxes podem ser qualificadas na sua maioria por adjetivos tão pesados como "violentas", "humilhantes", "dominadores", " de submissão", "coercivas"? Esta questão pode também ser acompanhada de outras semelhantes mas respeitantes a outras áreas: desde quando é que dar uma palmada no meu filho é "crime", ou reprovável ou negativo? Desde quando é que insultar veementemente um árbitro é excessivo e não simplesmente normal e natural?

Ou seja, a questão de fundo prende-se com o que foi exemplarmente aprofundado no livro "A loucura da normalidade", de Arno Gruen. É que a responsabilidade daqueles que possuem uma maior experiência e conhecimento (ou seja, os nossos pais, patrões, os decisores e todos os que, como os alunos veteranos, estão numa posição privilegiada (de maior poder) face aos outros) é ainda frequentemente exercida e acompanhada da contrapartida da submissão, controlo e dominação. Em vez de ser um ato de cuidar generoso, é uma troca: eu dou-te coisas e protejo-te e tu prestas-me serventia, reverência ou submissão. Claro que esta troca, mais ou menos "generosa", não é, na maior parte dos casos consciente. No entanto, esta dinâmica de dominação, obediência e conformismo está ainda muito enraizada culturalmente.
Veja-se um trecho do livro de Arno Gruen, exemplificador deste fenómeno na educação:

"«Torno-me no que tu queres para tu tratares de mim. A minha sujeição é, a partir de agora, o meu poder sobre ti, com o qual te obrigo a dedicares-te a mim.» Assim, o ato de se fazer dependente converte-se na vingança pela sujeição. Este ato tem várias facetas. Primeiro, a criança adota o critério dos pais. O que dá pelo nome de interiorização. É, portanto, um processo de colaboração pela subjugação. Segundo, isso significa que a criança começa a odiar em si tudo o que possa fazê-la entrar em conflito com as expetativas dos pais. E, terceiro, este ódio de si próprio acarreta a predisposição a subjugar-se cada vez mais."

Este fenómeno, eminentemente, inconsciente (porque intolerável à consciência humana!) funda a violência humana, no ataque que faz à autenticidade e autonomia da criança. Ela aprende desde que nasce que se fizer certas coisas é má e que os pais ficam contentes com ela se for como eles "querem". E assim, nasce a troca social fundadora da dominação, obediência e conformismo: troco a minha liberdade, autonomia e (auto-)empatia, bem como, a minha responsabilidade, pela segurança e conforto do conformismo fomentador da pertença e aceitação. O "conformista" típico poderia então ser definido como "um homem sem grande ambição, mas capaz de arranjar uma explicação do mundo que lhe permita viver sem ambiguidade" (Naipul, cit. por Gruen, 1995).

Este fenómeno pode ser visto com grande clareza nos casos extremos que são os cultos e seitas, ou os contextos de guerra (o holocausto, em particular) onde a obediência é claramente mais valorizada do que a liberdade e responsabilidade pessoais. Ou ainda no chamado "síndrome de Estocolmo", em que os subjugados são de tal forma coagidos que "aprendem" mesmo a aliar-se aos agressores como forma inconsciente de se aliarem à vida (evitando assim o medo de morrer associado naquele contexto à desobediência e à liberdade). 

Retomando o exemplo das praxes, podemos ver como parece ser um fenómeno, quase a meio termo entre cultura e culto: possui um código próprio, uma organização social e hierárquica bem definida e rituais grupais. A amostra do comportamento das comissões de praxe e outros estudantes presentes no programa Prós e Contras agiram como um grupo muito coeso e uniforme (nas ideias e nos "uniformes") numa lógica de in group, out group, ou seja, defendendo instintivamente os seus e reagindo agressiva e instintivamente aos de fora, aliás, numa lógica semelhante às interações entre "veteranos" e "caloiros". Os valores do grupo foram tão manifestamente presentes que surpreendentemente se sobrepuseram à própria realidade do que são as praxes, numa atitude de denegação defensiva da realidade com o objetivo de proteger o clã. 

Outra questão diz respeito aos processos inter-geracionais e culturais que levam à continuidade e manutenção do sistema. Sabe-se que a aprendizagem social se faz sobretudo por identificação aos modelos sociais. Numa sociedade de hierarquia e poder, quem foi subjugado quererá depois redimir-se e subjugar alguém assumindo ele próprio o poder do seu modelo de relação.

A verdade é que o contexto de praxe fomenta dinâmicas relacionais de sadismo e masoquismo que, por melhor que se possam desenrolar e tolerar na maior parte dos casos, são um terreno muito propício a abusos daqueles que mais abusados foram nas suas vidas e por isso mais rédea solta dêem aos seus impulsos sádicos. O que fazer? Não sei. Antes de mais pensar e sensibilizar para o assunto.  

Para terminar o artigo que já vai longo, chamar à atenção para os traumas que resultam destas dinâmicas sociais de certos graus de violência, sobretudo psicológica. Hoje, felizmente, já não é só a violência física que é fonte de preocupação e cada vez mais se atenta a esta, muitas vezes pior, forma de violência. Neste sentido, a psicoterapia EMDR revela-se como particularmente útil pela sua vocação e eficácia de realce em problemáticas de cariz traumático.

Sobre EMDR: http://www.psicronos.pt/consultas/emdr_12.html  

quarta-feira, janeiro 01, 2014

EMDR e a economia!



Uma palestra sobre EMDR numa perspetiva que sublinha a forma como o investimento na saúde, nomeadamente, a saúde psicológica tantas vezes afetada por traumas de toda a ordem, anda de mãos dadas com o desenvolvimento económico tão almejado e valorizado pelas sociedades atuais. É mostrada uma perpetiva à escala mundial sobre as necessidades da humanidade a este nível, bem como, explicada a ligação entre EMDR e a prosperidade e pacificação da humanidade.

sábado, dezembro 07, 2013

EMDR na recuperação, EMDR NA PREVENÇÃO

Face aos acontecimentos deste fim -de- semana, no Pinhal Novo (23/11/2013), uma questão antiga voltou a tomar algum espaço do meu pensamento. 

Já se tem em consideração que as vítimas e respetivas famílias tenham apoio psicológico (quando existe) face a alguns incidentes…no entanto, até que ponto os intervenientes nessas situações também têm? Por exemplo a polícia, a GNR, os bombeiros, as equipas do INEM, médicos e enfermeiros que se deslocam para locais de catástrofe…?

Chegar a um local e deparar-se com os mais vários tipos de cenário de horror, pode, mesmo para os mais treinados e experientes, provocar danos psíquicos. E é importante estar se consciente dessa possibilidade de forma a agir atempadamente.

O processo de EMDR constitui uma ferramenta muito eficaz no tratamento de Pós Stress Traumático, ou seja, quando já está instalado um quadro patológico bem definido. No entanto, sabe-se que até um período de 3 meses após o acontecimento, as memórias ainda não se “fixaram” na rede neuronal. Logo, esta terapia pode ser ainda mais eficaz se o trabalho for feito nesse período, podendo prevenir uma sedimentação em quadro patológico.

Para que tal aconteça é necessário estar se atento à evolução da situação. Existem várias formas de reagir ao choque, e muitas vezes uma espécie de “congelamento” afetivo (quando parece que a pessoa não reage) pode mascarar um possível quadro reativo posterior.

Lembrei-me do caso deste fim-de-semana porque dei por mim a imaginar que impacto que pode ter num militar da GNR, deparar-se com um colega abatido e numa situação onde os níveis de stress são elevados. A reação a este cenário pode ser diversa, dependendo de cada indivíduo e do respetivo contexto …

Acima de tudo, pretendo alertar a todos os que de algum modo são vítimas ou testemunhas de um incidente de qualquer natureza, que provoque reações fisiológicas ou emocionais intensas tais como rever mentalmente a situação inúmeras vezes, estar em sobressalto perante situações que façam lembrar o acontecimento (direta ou indiretamente), crises de ansiedade súbitas (tipo ataque pânico), congelamento afetivo e sensação de se estar distante da cena, sensação de irrealidade, entre outros sintomas, que podem estar a organizar uma reação traumática. Nestes casos se se procurar apoio rapidamente, pode não se chegar a desenvolver um quadro patológico. E nesse sentido, o EMDR surge como tratamento de excelência, na recuperação mas também na prevenção. Basta estar-se atento e não ter receio daquilo que se está a experienciar, seja mais ou menos “normal”.

E se as corporações, pelas mais diversas razões, não têm a possibilidade de disponibilizar aos seus funcionários o apoio devido, é importante pelo menos que os mesmos saibam que esse apoio está disponível e deve ser acionado sempre que , no mínimo,  se tenha dúvidas sobre o que se está a experienciar.

Carla Ricardo
Psicologa Clínica e Psicoterapeuta
Psicronos Setúbal

sexta-feira, novembro 22, 2013

EMDR NA INFÂNCIA: VOLTAR A PÔR AS COISAS NO LUGAR

«A Dessensibilização e o Reprocessamento pelo Movimento Ocular é um método psicoterapêutico eficaz na resolução de dificuldades emocionais causadas por experiências perturbadoras, difíceis ou assustadoras. Quando as crianças estão traumatizadas, têm experiências perturbadoras ou fracassos repetidos perdem o sentimento de controlo sobre as suas vidas. Tal pode resultar em sintomas de ansiedade, depressão, irritabilidade, raiva, culpa e/ou problemas comportamentais. Sabemos que eventos como acidentes, abusos, violência, morte e desastres naturais são traumáticos, mas nem sempre reconhecemos de que forma afetam a vida quotidiana das crianças. Mesmo os eventos perturbadores mais comuns como o divórcio, os problemas na escola, as dificuldades com os pares, os insucessos, e os problemas familiares podem afetar profundamente o sentimento de segurança, a auto-estima e o desenvolvimento da criança.

Por vezes, quando acontece uma experiência perturbadora, assustadora ou dolorosa, a memória fica “bloqueada” ou “congelada” na mente e no corpo. A experiência pode voltar de modo angustiante e intrusivo. A criança pode reagir através do evitamento de tudo o que esteja associado à experiência perturbadora. Por exemplo, quando uma criança experimenta um grave acidente de bicicleta, pode haver pesadelos repetidos, medo de tentar novas coisas e evitamento de tudo que estiver relacionado com bicicletas.

A maioria dos especialistas acredita que a melhor forma de desbloquear e libertar-se dos sintomas é através da exposição à experiência traumática. Isto significa enfrentar as memórias ou os eventos problemáticos até deixarem de ser perturbadores.

O EMDR utiliza uma estimulação dual (bilateral) da atenção, que significa o varrimento alternado esquerda-direita, que pode ser pelo movimento dos olhos, sons ou música em cada ouvido, ou estimulação táctil, como batidas leves alternadas nas mãos. Têm sido desenvolvidas alternativas criativas para as crianças, que incorporam a estimulação dual da atenção através de fantoches, histórias, dança, arte, e até natação.
O EMDR ajuda a resolver os pensamentos e sentimentos problemáticos associados às memórias, de modo a que as crianças possam voltar às tarefas normais do desenvolvimento e aos níveis anteriores de funcionamento. Para além disso, o EMDR ajuda a fortalecer os sentimentos de confiança, calma e mestria.

Como é uma sessão de EMDR?

O EMDR é parte de uma abordagem terapêutica integrada, sendo frequentemente usada em conjunto com outras práticas como a ludoterapia, a terapia pela palavra, a terapia comportamental e a terapia familiar. O EMDR será explicado e usado com o consentimento da família e da criança.

Uma sessão típica de tratamento EMDR começa de uma forma positiva, levando a criança a usar a sua imaginação para fortalecer o seu sentimento de confiança e bem-estar. Por exemplo, pode pedir-se à criança que imagine um lugar seguro ou protegido, onde se sente relaxada, ou que se lembre de uma situação em que se sentiu forte e confiante. Estas imagens, os pensamentos e os sentimentos positivos são depois combinados com movimentos oculares ou outras formas de estimulação dual (bilateral) da atenção. Estas experiências iniciais com o EMDR oferecem à criança o aumento de sentimentos positivos e ajudam-na a saber o que esperar.

Em seguida, pede-se à criança que aborde uma memória perturbadora ou um evento relacionado com o problema apresentado. A estimulação dual da atenção é novamente usada enquanto a criança se foca na experiência perturbadora. Quando uma memória perturbadora é “dessensibilizada”, a criança consegue enfrentar eventos do passado sem se sentir perturbada, assustada ou evitante. “Reprocessamento” significa apenas que uma nova compreensão, outras sensações e novos sentimentos podem ser associados aos anteriores pensamentos, sentimentos e imagens perturbadores. As memórias problemáticas podem ser mais confortavelmente evocadas como “simplesmente algo que aconteceu”, e as crianças mais facilmente acreditam que “Acabou”, “Agora estou seguro”, “Fiz o melhor que pude, não é culpa minha”, “Tenho outras opções agora”.

O EMDR pode ajudar o meu filho?

O EMDR pode ser usado tanto com crianças pequenas, como mais velhas, e adolescentes. Estudos de caso indicam que o EMDR tem sido usado com sucesso em crianças pré-verbais, bem como com adolescentes que não querem falar sobre os assuntos perturbadores. Como em qualquer outra intervenção, quanto mais nova ou quanto mais evitante for a criança, maior o desafio na procura de formas de a envolver e de focar a sua atenção no problema. É benéfico que os pais e os profissionais expliquem que o EMDR é uma forma de ultrapassar os pensamentos, sentimentos e comportamentos inquietantes. O EMDR tem sido usado para ajudar crianças a lidar com eventos traumáticos, depressão, ansiedade, fobias e outros problemas comportamentais.

O processo EMDR é diferente com cada criança, porque a cura é guiada a partir de dentro. Algumas crianças descrevem que o EMDR é relaxante e têm uma resposta positiva imediata. Outras crianças podem sentir-se cansadas no final da sessão, e os benefícios serem observados nos dias que se seguem. Uma menina de 10 anos esteve engessada durante um ano e estava preocupada com lesões, doenças e morte devido a um acidente traumático. Depois do EMDR começou a chorar lágrimas de alegria e disse “Estou tão feliz, acabou mesmo e eu sou forte”. Um rapaz de 5 anos com problemas de comportamento, cujo terapeuta trabalhava com outras técnicas, e experimentou EMDR disse “Porque é que não fizeste isto comigo antes?”. Outro rapaz de 8 anos que mantinha pesadelos disse “Eles simplesmente saltaram da minha cabeça, os monstros desapareceram”. Outras crianças dizem muito pouco, mas o seu comportamento muda e os pais dizem “As coisas estão a voltar ao lugar”.»

Esta publicação é uma tradução parcial e informal da brochura informativa da autoria da EMDR International Association (EMDR &Children- Guide for Parents, Professionals, and Others Who Care About Children)

Alexandra Barros
Psicóloga e Psicoterapeuta (Delegação de Lisboa)
Diretora do Departamento de Infância
alexandra.barros@psicronos.pt 

A Psicronos tem psicoterapeutas formados em EMDR na Infância (Delegaçoes de Lisboa e Faro/Portimão)

terça-feira, julho 12, 2011

Frase crua do dia



"Um homem vulnerável
é uma criança a chorar..."

Antigo combatente de guerra com perturbação pós-stress traumático

segunda-feira, janeiro 18, 2010

O Laço Branco

Este filme conta uma história passada numa aldeia protestante do norte da Alemanha.

Este filme faz-nos pensar, acerca das consequências que o excesso de rigidez pode fazer, na educação das crianças , ao lhe provocar tanta raiva que qualquer coisa ou pessoa que fuja do que é normal lhes dá a ideia que a podem castigar tal como eles foram castigados.